Volta ao mundo em 80 dias

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Julio Verne que me perdoe mas hoje a volta ao mundo que interessa não é a de Phileas Fogg. Muito menos de alguém com a vida fácil e rotineira desse típico personagem inglês. A viagem que chama atenção é a da famosa blogueira e ativista política cubana, Yoani Sanchéz, que, após 20 tentativas, e praticamente 7 anos depois, finalmente conseguiu deixar o país para um tour pelo mundo. 

Convites de interessados em entrevistas, filmes e palestras não faltaram. Faltava mesmo era boa vontade do regime castrista de deixar uma das maiores dissidentes políticas do país sair zanzando por aí. A última autorização de saída negada foi em 2012 quando o cineasta brasileiro Dado Galvão convidou Yoani para a estreia do documentário “Conexão Cuba Honduras”, que contava com entrevistas e participações da blogueira. Até o visto brasileiro já se tinha, e, aos 45 do segundo tempo, ela foi impedida novamente de sair. 

Essa atual viagem somente foi autorizada em virtude da reforma imigratória que, no início de fevereiro “facilitou”, digo, diminuiu um pouco a grande complicação burocrática, para se deixar o país. Exigências como a de uma carta-convite e do pagamento da autorização de saída foram abolidas, apesar de o governo poder manter seu veto a quem lhe interessar. Mas, a despeito das inúmeras dificuldades (muitos, incluída a própria blogueira, apontaram que ainda há muitas barreiras proibitivas), Yoani conseguiu. 

E o primeiro país que decidiu encaminhar-se foi o Brasil. Após uma breve escala no Panamá chegou hoje a Salvador. Foi recebida calorosamente por alguns e em meio a protestos por outros. O mais interessante foi sua reação frente aos protestos que acusavam de estar ligada à CIA e à espionagem estadunidense. Disse que gostaria muito que em seu país as pessoas pudessem se manifestar livremente e sem serem punidas, e que era um banho de pluralidade e democracia. Uma frase imponente que destaca bem o tema que vai levantar nos próximos meses: a liberdade de expressão. 

Com esse acontecimento histórico, posso levantar alguns pontos e hipóteses interessantes sobre os dias que virão. 

A vinda de Yoani é sim um interessante reflexo de um regime que lentamente vai se abrindo e que é sempre teve “dificuldades” de lidar com a dissidência política. As reformas anunciadas por Raúl Castro, incluída a imigratória, apontam para uma mudança gradual na qual o caráter é um distensão sem que se perca o controle político em muitos aspectos. Ao mesmo tempo, quando autorizou a saída da blogueira, o governo deveria já ter em mente o aumento da pressão e exposição que Cuba terá nos noticiários nos próximos dias. 

Pressões externas nunca foram o problema para o país que desde o anos 1960 está excluído da maior parte dos organismos internacionais e ainda sofre sanções de diversos países. Mas, por outro lado, deixar Yoani zanzando por aí talvez seja um sinal estratégico de inflexão na postura externa. O tempo dirá melhor se algumas dessas hipóteses de fato se confirmam ou se é tudo mera especulação provinda de um ato impensado. 

Em sua volta ao mundo, nos próximos 80 dias, Yoani vai trazer o tema da liberdade de expressão e dos direitos humanos de volta ao centro da pauta. O governo cubano terá que dar seus pulos frente a qualquer aumento de pressão, algo que nunca foi um problema. E o Tio Sam se deleitará com esses temas na agenda internacional. Entre protestos e abraços, com certeza, serão 80 dias intensos.


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica, Política e Política Externa


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