Vivemos na pré-história?

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O presidente uruguaio, José “Pepe” Mujica, discursa na abertura da

 68ª Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU)


Não posso deixar de comentar sobre a Abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) que ocorreu no último dia 24 de Setembro. O Álvaro já o fez em seu texto “O poder do discurso”. Mas não se configura em repetição nos debruçarmos novamente nesse aspecto. Discursos públicos com toda certeza refletem as relações de poder entre as pessoas e, especificamente na ONU, entre os Estados nacionais. 

Obviamente, muito se falou sobre o discurso da presidente Dilma Rousseff. Atacou a espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA, em inglês) dos Estados Unidos. Criticou a falta de resposta do governo de Barack Obama. E defendeu a criação de um marco regulatório de dados sobre as informações que circulam na rede mundial de computadores (internet). Os pronunciamentos do próprio Obama e do presidente iraniano, Hassan Rouhani, também foram impactantes no sentido de procurarem fomentar o diálogo entre as partes. Mas as falas do líder norte-americano basearam-se no de sempre: problemas com o terrorismo e com a segurança nacional de seu país. De necessário, e mesmo sendo criticado por isso, as palavras sobre a situação desastrosa na Síria soaram de forma razoável e deveriam mesmo ser mencionadas. 

De forma mais “secundária”, sem os holofotes da grande mídia nacional e internacional, outro discurso chamou a atenção na abertura da AGNU. Estou me referindo a José “Pepe” Mujica, presidente uruguaio. Foi um pronunciamento eloquente, ávido, perspicaz e, porque não dizer, moralista. Moralista no sentido de “puxar a orelha” de muitos governantes que estavam ali presentes, principalmente dos líderes das maiores economias e do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU). 

Mujica fez um discurso que, nos dizeres das Relações Internacionais, pode-se denominar “do sul para o sul”. Citou como recurso identitário a América Latina, nome que não tem um sentido único, mas que nesse contexto remeteu-se, nos dizeres do presidente, aos “compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões” da região. 

Seu pronunciamento foi liberal, humanista e crítico. Liberal no sentido político, mas totalmente avesso ao neoliberalismo de mercado. Humanista por tentar resgatar o que há muito estamos perdendo: o sentido de cidadão, o “ser civilizatório”. Crítico, porque serve para mim, para você e quaisquer pessoas. Para autores como Francis Fukuyama, o qual ficou globalmente conhecido por decretar o fim da história, aparece uma nova dúvida a partir das palavras de Mujica. Fim da história? Como, se ainda vivemos na pré-história? 

Ah sim, para o filósofo e economista nipo-estadunidente, a Democracia Liberal seria o último estágio da evolução social da humanidade. Meia-verdade. Falta chão para termos democracias liberais de fato e não de presidenciáveis alheios às visões de quem realmente precisa de recursos. Voltando ao Mujica, ele diz que vivemos em tempos de turbulência econômica e de guerras, daí decorre a nossa atual pré-história. Em suas palavras: “No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.” 

Mujica é exaltado e, de maneira inversa, veementemente alvo de críticas enquanto líder uruguaio. Acredito que não devemos colocá-lo em um pedestal e ovacioná-lo toda hora. Todavia, não podemos deixar de notar seu espírito futurístico e, mais importante ainda, humano que muito faz falta a outros governantes. Cabe a cada um interpretar sua exposição durante a AGNU. Para mim, foi meio que um “tapa na cara” para dizer “Acorda, cara. Tem muita coisa acontecendo por aí”. 

Para terminar o texto com palavras bonitas, copio outro trecho do discurso de Mujica: “A verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra quando a política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos”.

PS: O discurso completo de José Mujica está disponível em vídeo aqui e escrito aqui.


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