Visitas amigáveis

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Fonte: Roberto Stuckert Filho/PR


Dando continuidade aos assuntos mais relevantes da presente semana, vamos focar um pouco aqui na América do Sul. Nos últimos três dias, Nicolás Maduro, atual presidente da Venezuela, visitou e manteve diálogo com Mujica, no Uruguai, Kirchner, na Argentina, e Rousseff, aqui no Brasil. Foi a primeira grande viagem internacional do líder venezuelano após o falecimento de Hugo Chávez e sua tomada da posse no cargo em meados de Abril. 

O giro pela região evidencia um duplo processo. Primeiro, é uma forma de Maduro ratificar a legitimidade de sua conturbada eleição e passar uma imagem positiva da Venezuela ao Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). Segundo, além de ser uma visita usual, é uma maneira do presidente atestar seu comprometimento com o bloco regional, fato que ficou notadamente reconhecido durante estes dias com a assinatura de diversos acordos, dentre eles os que tangem cooperações energéticas com os uruguaios e convênios de inclusão social e alimentícia com os argentinos.

No caso específico do Brasil, os acordos versaram sobre a construção de fábricas em território venezuelano por uma empresa brasileira nas áreas de fertilização e derivados do petróleo. Além disso, debates em torno do comércio de produtos básicos como açúcar, óleo, farinha de trigo e leite foram colocados na pauta, tendo em vista que desde o ano passado faltam esses produtos nas prateleiras dos supermercados da Venezuela. Nada melhor do que buscar soluções no próprio MERCOSUL. Tarefa das mais simples para um problema bem complexo. 

Saindo da seara econômica, a qual é majoritária no bloco regional, as nuances políticas da retirada do Paraguai das negociações em 2012 também fizeram parte das reuniões de Maduro com Mujica, presidente uruguaio que é o atual presidente pro tempore do MERCOSUL. Defenderam a “re-entrada” dos paraguaios na integração e disseram que o período de instabilidade já passou.

Ademais, o futuro do MERCOSUL é marcado por incertezas. Sempre alvo de críticas desde sua criação e posterior institucionalização em 1991 (Tratado de Assunção) e 1994 (Protocolo de Ouro Preto), respectivamente, a entrada da Venezuela no bloco mostrou-se positivamente quando se fala em anseios econômicos, haja vista que o país tem porte de destaque, principalmente na área petrolífera, para trazer benefícios à região. Entretanto, do lado político o processo vem se mostrando contraditório, principalmente com a saída do Paraguai. 

A Venezuela pós-Chavez tem um papel central para o futuro do MERCOSUL. A ligação entre a tríade Brasília, Buenos Aires e Caracas é vital para o desenvolvimento da integração, assim como afirmado pelo muito conhecido Professor Amado Luiz Cervo, o qual atesta que a adesão venezuelana é um modo mais adequado de corrigir as assimetrias regionais. Finalmente, falando agora de maneira restrita ao Brasil e à Argentina, ambos acertaram um acordo de cooperação nuclear no último dia seis de Maio. Lembrando que foi justamente essa questão armamentista um dos estopins entre os dois países no fim da década de 1980 para chegarem a uma colaboração que iniciou a formalização do MERCOSUL enquanto organização internacional juridicamente reconhecida.


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