Viradinha pra direita

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É le Pen, será que foi dessa vez? Lembram dele?

Tudo bem que montar um bloco de 27 países não é coisa fácil. Ainda mais um arranjo cooperativo que por pouco não aprovou até uma constituição própria e que almeja uma política de defesa e segurança comum, que já tem moeda própria e Banco Central. A União Européia é com certeza o mais avançado modelo de cooperação que existe no planeta, mas isso não significa que as coisas por lá sejam um paraíso. A Europa é um caldeirão.

Caldeirão de culturas, raças, crenças, partidos políticos e isso, obviamente, tem consequencias na vida das pessoas, ainda mais quando se tenta juntar isso tudo num só bloco. Que o digam os imigrantes argelinos da França ou os trabalhadores poloneses. E agora aqueles da própria Europa do Leste.

E essa semana saiu o resultado das eleições pro Parlamento Europeu. Embora (segundo estudo que li quando estava na faculdade ano passado), grande parte dos europeus sequer saibam o que é o parlamento, normalmente o pleito indica duas coisas: 1. aprova ou reprova o governo interno de cada país (isso se vê pelos resultados dos partidos); 2. reflete como o povo por lá anda reagindo ao que está acontecendo internamente e na própria União.

Para informações mais detalhadas dos resultados, clique aqui e aqui.

Então, analisar as eleições na Europa deve levar em conta esses dois fatores: conjuntura interna e externa. De tudo que vi, comentarei três fatos que acho relevantes, afinal, comentários gerais na internet é o que não falta.

1. Pirataria no parlamento: E não foi que o Partido Pirata ganhou um assento no parlamento? Pois é, a França aprovou uma lei que pretende prender quem faz pirataria na internet, muita gente por aí quer proibir, mas agora quem quer baixar seu filminho em paz tem representantes no Parlamento Europeu!

O Partido Pirata Sueco é da mesma turma do Pirate Bay, o site de torrents que foi condenado pela justiça mas que conseguiu com isso somente mais publicidade e adeptos. Tá na cara que não adianta lutar contra pirataria na internet, é preciso encontrar uma nova saída, e parece que as empresas já tem conseguido isso. Não dá tempo de comentar aqui, mas a edição deste mês da Superinteressante tem uma matéria legal sobre o assunto.

2. Festinhas inocentes no parlamento? E quem foi o mais vitorioso de todos na Europa? O partido do Berlusconi, aquele mesmo das festinhas inocentes. Ele teve 35% dos votos, e, colocando a culpa no Kaká, que saiu do Milan e com isso teria feito seu partido perder votos (ele é o presidente do Milan), teve 10% a menos do que o esperado. Mais um sinal de que a direita está forte. Com festinha e tudo.

3. Mais direita: Pois é, e aqueles que são tão de direita, mas tão de direita, que chegam a dar a volta se saíram bem mesmo, sobretudo na Grã Bretanha, Itália e Holanda, entre outros países. No caso da Grã-Bretanha, a situação interna explica muita coisa. O Gordon Brown tá com a corda no pescoço e isso teve conseqüências no desempenho do seu partido (trabalhista) nas eleições. Por isso, e pelas particularidades do sistema eleitoral britânico, acredita-se que a direita não terá muita força nas eleições próximas eleições internas.

Reparem nas tendências: é óbvio que a crise influenciou a opinião pública em favor da direita lá pros lados da Europa. A maior parte dos países era governado por partidos de centro-esquerda, e é natural que eles percam a popularidade e essa tendência apareça no pleito.

No entanto, esse movimento de endireitamento não é novidade na Europa, lembram do le Pen na França? Ele chegou ao segundo turno nas eleições para presidente uns anos atrás. Além disso, o endurecimento das leis de imigração, por exemplo, não são de hoje. Portanto, essa crise foi mais um catalizador do que uma causa para esses resultados.


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