Virada de Mesa

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Nos últimos dez anos, os Estados Unidos e a China andam vivenciando uma relação muito peculiar, tanto nos âmbitos político quanto econômico. A história é conhecida: assolado por um capitalismo tão selvagem que nem os que cunharam o termo poderiam imaginar, o gigante asiático emerge com uma economia pujante que galga degraus na economia mundial a taxas de crescimento cavalares. Isso contou de certo modo com a anuência dos EUA, que serviram em um primeiro momento como uma das grandes reservas de mercado para os produtos chineses, e que se aproximaram politicamente com Pequim no período.

Isso em períodos mais brandos. Atualmente, no cenário de crise mundial, a economia chinesa resiste brava e artificialmente às intempéries do mercado, mas vê que os EUA já não são tão imponentes quanto o eram há dez anos, nem tão imprescindíveis economicamente aos planos chineses. Essa percepção pode ser encontada no cenário político, refletida por alguns fatos recentes, como a visita do presidente Obama ao país. Se em outros tempos a representação norte-americana era amplamente respeitada e alcançava sucessos em relação a acordos e tratados, Obama sofreu com gafes, imprevistos e uma aparente insolência por parte dos chineses, como na censura indireta ao seu pronunciamento sobre direitos humanos, alem de não conseguir nenhum tipo de acordo relevante. Mais do que características próprias do temperamento do governante norte-americano, ainda incapaz de tornar realidade muitas das iniciativas que lhe valeram o Nobel, o desenrolar da visita pode ser apenas um sinal de como as relações entre os países podem vir a se deteriorar. Em pouco tempo, a China se tornará a segunda maior economia do mundo, e pode vir a perder de vez o respeito (ou temor?) pelo único país à sua frente, com uma economia até agora forte e possivelmente menos dependente dos EUA. Essa intransigência chegou a níveis ainda mais alarmantes como demonstrado durante a COP-15 – se a China não dá mais a mínima para os EUA, que dirá do resto do mundo.

Isso apenas se pensarmos no aspecto econômico. Um fator determinante desta questão está em discussão, na consolidação de um tratado militar com Taiwan, originário do período Bush. Apesar de ser um acordo relativamente humilde, e depenado de itens importantes como aviões de caça, é suficiente para fazer ressurgir uma questão delicada para as partes. O tema da província rebelde sempre foi uma farpa nas relações entre China e EUA, mas alcançou um grau tão impressionante de gravidade que, se o acordo de fornecimento de material bélico à ilha vier a ser concretizado, aventa-se até o rompimento de relações por parte dos chineses. (diz-se ser “inevitável” o rompimento de relações militares pelo menos). Se antes as ameaças de rompimento ficavam restritas ao campo das bravatas e das impossibilidades, há desta vez a inédita e real chance de que os chineses estejam mesmo dispostos a aplicar este “trunfo”, muito arriscado em um cenário mundial instável.

A bolha chinesa agüenta a inflação (que virá, mais cedo ou mais tarde) e consegue manter o status de maior credora dos EUA? Rompimento de relações diplomáticas? Ainda é cedo para especular sobre eventos tão extremos, mas há fortes indícios de que atitudes mais ríspidas podem vir a desgastar ainda mais as relações entre os gigantes, um em decadência econômica e com sua imagem desgastada, outro alçando vôo como um foguete e disposto a virar a mesa do tabuleiro econômico e político mundial.


Categorias: Ásia e Oceania


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