Vinte centavos no país das maravilhas

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Vinte centavos nunca custaram tão caro. E não foi preciso ser Alice para cair na toca de um coelho e ver o impossível se tornar possível. Bastou sair às ruas ou acompanhar o noticiário. Disseram uns que “o gigante acordou”, outros entoaram o hino nacional com entusiasmo inabalável. A maioria protestou pela primeira vez. De repente, o Brasil tornou-se o país das maravilhas em um mundo já maravilhado. 

Aquela recorrente característica do povo brasileiro, a apatia, é colocada à prova. Povo apático, não necessariamente pacífico (o relatório anual do australiano Instituto para a Economia e a Paz intitulado Global Peace Index listou o Brasil em 81º lugar entre 162 países). Uma apatia que encontra traços na própria história da formação política, econômica, social e cultural do país, analisada por ícones da intelligentsia brasileira. 

A cordialidade, diria Sérgio Buarque de Holanda, é uma herança lusitana, cuja delicadeza no trato serve a propósitos pessoais. Perpetuam-se, com isso, as relações de compadrio, a troca de favores, o estado patrimonialista, a subordinação do interesse público aos interesses particulares, entre outras distorções. Não por menos, Raymundo Faoro tanto destacou as cíclicas tensões entre a construção de um estado patrimonialista, por parte das elites, e sua possibilidade latente de dissolução, por meio das massas e de uma ação democrática. Seguiria a república inacabada. 

Será que concluímos a república? Após mais de quinhentos anos de “descobrimento” e quase duzentos anos de independência, será que o brasileiro encontrou uma forma de organização político-institucional e socioeconômica da qual faça parte e nela se sinta plenamente representado? Se não, o que fazer? 

Mesmo na antiga sabedoria política hobbesiana, em que os indivíduos renunciariam à sua liberdade incondicional em benefício de uma segurança despótica, abria-se espaço para derrubada do soberano. Uma vez descumprido o pacto social que o instituía, cabia aos súditos destituí-lo e realizar um novo pacto. Para os arautos do socialismo, comunismos, marxismos, entre outros “ismos” ditos de esquerda, a revolução seria o caminho; o modo de fazê-la, discutível. Mas sopraram os ventos liberais, forjados pelas revoluções (também) burguesas, e os ideais da modernidade iluminista percorreram o mundo. O principal deles: era preciso domesticar o leviatã, seja ele quem ou o que for. Aí também entrou a sociedade e suas manifestações. 

Não é diferente hoje. E não dá para compreender o Brasil sem olhar para o mundo. Poucos imaginavam que presenciariam uma onda global de protestos nesta década, afetando, indiscriminadamente, países ricos e pobres, democráticos e autoritários. O mais recente deles na Turquia. 

A crise financeira internacional levou multidões às ruas para protestar contra o agravamento das condições socioeconômicas. Desemprego, pobreza, fome, medo e descrença pareciam anunciar o fim do estado de bem-estar social europeu. O “Ocupe Wall Street”, cujo mote “99% x 1%”, lançou um grito contra a desigualdade na distribuição de renda e de riqueza na terra de oportunidades, na superpotência mundial. Os estudantes chilenos marcharam em prol do ensino universitário. E, é claro, a Primavera Árabe, quando a autoimolação de um vendedor de frutas tunisiano inflamou levantes populares no Oriente Médio e no norte da África. Em edição especial sobre o assunto, a revista Foreign Policy trazia em suas primeiras páginas uma piada egípcia: “Qual é o dia perfeito para Hosni Mubarak? Um dia quando não acontece nada.”. 

Muita coisa aconteceu. Não só no Egito. A personalidade do ano eleita pela revista Time, em 2011, foi “o manifestante”, cuja capa apresentou uma pessoa com a face coberta, deixando apenas os olhos à mostra. Sem dúvidas, esta “Era da Informação” proporcionou um empoderamento dos indivíduos, alterando as relações de poder entre eles e os governos e ampliando os meios para se conduzir a ação política. Dos suntuosos edifícios para o espaço público, da representatividade indireta para o tête-à-tête, uma nova ágora está se desenhando. 

Mas também muitos sonhos feneceram. Em meio à crise financeira, governos eleitos pelo povo foram substituídos por tecnocratas, que passaram a adotar medidas impopulares à procura de uma saída. As vozes libertárias e reformistas de muitos árabes foram sucumbidas pelo conservadorismo das classes dirigentes, já no poder antes mesmo da eclosão dos protestos. Observou-se que sair às ruas não foi sinônimo imediato de mudar um país. Mudou, sim, a mentalidade das pessoas. 

Se for possível uma rápida conclusão, toda manifestação não pode abrir mão da política. Não aquela partidária, mas sim a organizacional, diretiva e finalística, no sentido de definir objetivos e estratégias para alcançá-los. Renegar à política é perder a chance de escrever a história, e não somente nela se inscrever. As imagens ficam, o filme passa.

Isto ainda não está ocorrendo no Brasil. De início, já se sabia que os R$ 0,20 era apenas o estopim para algo mais amplo. Há um sentimento de indignação coletiva contra vários assuntos: transportes, Copa do Mundo, corrupção, mídia, saúde, educação e por aí vai. É a insatisfação contra algo ou alguém que une as pessoas. É também o que lhes dá esperança. Alguns dirão, com razão, que a democracia é povo nas ruas, unido não só pelas concordâncias, mas especialmente pelas discordâncias. A festa do pluralismo em uma sociedade multicultural, o fim da inércia… A combinação perfeita!

Na prática, a teoria é outra. Quem protesta contra tudo, ao mesmo tempo, protesta, especificamente, contra nada, assim como manifestações que representam todos os grupos acabam por não representar, particularmente, nenhum deles. O resultado é o estabelecimento de uma agenda negativa, não no sentido pejorativo, mas sempre em resposta ao que está ruim e, mesmo apresentando o que se pretende, não propõe como alcançá-lo. 

Até agora, tem-se uma sociedade mobilizada, não necessariamente organizada, e que apresenta uma mensagem clara aos governantes e a ela: a rua, mais do que nunca, é a reação natural aos descasos e distúrbios do sistema político brasileiro. O segredo é passar de uma agenda negativa para outra propositiva e converter essa mensagem em satisfação das demandas. Certamente, isso contribuiria para restringir os “vândalos” e “baderneiros”, que não representam, de fato, os movimentos. 

As manifestações atuais, enfim, fazem parte do acabamento da república. Põem em xeque a cordialidade de um povo que tenta amar o próximo, mas esquece o distante. Recuperam a brasilidade e fazem o cidadão sentir as rédeas do destino de seu país em suas mãos. Nada de errado nisso. Porém, por enquanto, o que se ouve é aquele brado retumbante, outrora contido, contra todo e qualquer problema. A diversidade, embora seja uma virtude unificadora, é também a vicissitude dos protestos, algo que tende a apequenar o “gigante acordado”. Sem organização, agenda e lideranças, os manifestantes deverão ser suplantados por outra inércia, ainda pior: a indecisão. 

A melhor ilustração para momento está na própria obra Lewis Carroll, que, mais do que um livro infantil, é um tratado de lógica. Quando Alice se depara com uma encruzilhada, ela pergunta para o gato qual caminho deveria seguir, ao que ele responde com outra questão: “para onde quer ir?”. Sem titubear, ela lhe diz que pouco se preocupa para onde vai. Sabiamente, argumenta o gato: “nesse caso, qualquer caminho serve”. Nós ainda somos todos Alice. E prosseguem as manifestações.

*Texto do colaborador Giovanni Okado.


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