Vinícius, eterno!

Por

[O colaborador Giovanni Okado nos brinda com um ótimo texto sobre Vinícius de Moraes – poeta, boêmio, diplomata, e, post mortem, Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata. Confira abaixo!]

“Meu Vinícius de Moraes,

Não consigo te esquecer,
Quanto mais o tempo passa,
Mais me lembro de você.”

Não apenas Tom Jobim, mas o Brasil inteiro se lembra. Há uma saudade cuja idade não falta a memória e o tempo não fenece: duas décadas sem a cultura, a música e a poesia do inesquecível Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes, ou simplesmente Vinícius de Moraes (confiram sua biografia).

Nascido em 1913, no Rio de Janeiro, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Vínicius haveria de transcender com a beleza poética, transformada posteriormente em canções, à dureza da realidade: guerras, crises e tensões, externamente; lutas sociais e a ditadura, internamente. Poeta e diplomata, mas também boêmio. Uma boemia que lhe rendeu tanto críticas quanto uma criatividade extraordinária, inclusive para responder às críticas à altura e com elegância (como no episódio em que ele bradou os versos de Poética para os jovens salazaristas, ferrenhos à ditadura lusitana, e estes se curvaram ao gênio).

Pessoa de gostos simples, apaixonado pela carne seca desfiada da tia Beti (mulher de Pixiguinha), e requintados pela poesia francesa. Num país condenado por suas imperfeições, foi patriota como poucos, como expresso no poema Olha Aqui, Mr. Buster. Sofredor, como há de ser o grande poeta, perseguido pelo AI-5 e sempre saudoso do Brasil, quando no exterior. Em resposta à publicação do AI-5, Vinícius declamou Minha Pátria, juntando a perseguição e a saudade:

“Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!”

Só que a perseguição lhe custou a carreira diplomática, já tão contestada por ser incompatível com a de músico. Não bastasse aposentá-lo compulsoriamente do serviço público, em 1969, classificou-o entre os “bêbados, boêmios e homossexuais”. Classificações que seriam varridas junto com o regime autoritário, preservando a herança cultural e literária, antes confinada aos círculos elitistas, por toda a nação. Vinícius não assistiu à queda da ditadura, morreu em 1980, vítima de um edema pulmonar. Partiu sem pedir a benção e dizer adeus. Mas segue como um ícone raro de nossa história, capaz de unir a ação ao sentimento (embora ele tenha dito isso a Carlinhos Lyra), de demonstrar que as palavras se sobrepõem à força.

É, Vinícius, sem você, o Brasil emudeceu e ensurdeceu. Ainda assim, não o esqueceu. Exemplo disso é a sua elevação post mortem ao cargo de Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata (aqui), o mais alto cargo dessa carreira. Você foi eterno enquanto durou, e que assim permaneça quando não mais dura. A benção a nós que ficamos e o reconhecimento a você que partiu…

[Para quem tiver interesse, no YouTube está disponível uma sequência de vídeos sobre Vinícius de Moraes, no programa Mosaicos. Acesse aqui a parte 1, a parte 2, a parte 3, a parte 4 e a parte 5. Vale a pena!]


Categorias: Brasil, Cultura, Política e Política Externa