Vicio na humanidade

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A curiosidade é mais importante do que o conhecimento.

Albert Einstein

Confesso que todas as vezes que vou a um local como aquelas livrarias mais livres, que disponibilizam sofás para leitura dos títulos à venda, perco bastante tempo. Tenho vicio em procurar livros nas estantes da minha área. Não clássicos, obras premiadas ou grandes pesquisas. Mas muitas vezes títulos de jornalistas, curiosos ou até mesmo obras ideológicas, descompromissadas, por vezes colocadas lá apenas por falta de cuidado do encarregado pela arrumação.

A maioria desses livros é evidentemente mal escrita, amadora. Levam consigo a marca de serem para leigos. Muitos parecem feitos por leigos também. O mais curioso são os nomes, capazes de chamar a atenção de quem nunca se interessou pelo assunto. “As cem maiores guerras”, “O livro das guerras”, “Os segredos de Hitler”, “Fofocas sobre a Guerra Mundial” são alguns dos títulos. Outros vão mais longe, prometem coisas como “Um breve resumo sobre a História da Humanidade”.

Na última vez que fui a uma livraria, me deparei com um livro curioso, chamado “O grande livro das coisas horríveis”. E dentro dele supostamente estavam as 100 maiores atrocidades vividas pela humanidade. No formato de pequenos resumos ao estilo Wikipédia, o autor citava conflitos que no seu ponto de vista faziam parte do grupo seleto. O texto, como o próprio título e o tema esclarecem, não tinha caráter cientifico. Ao contrário, em certo momento o autor até se deu ao trabalho de criar um ranking dos fatos, colocando cada catástrofe em uma posição, como um concurso de misses, ao estilo americano de se fazer uma espécie de “livro dos recordes”.

Entre as mais terríveis atrocidades, a Segunda Guerra Mundial foi eleita a grande vencedora. Confesso que me interessei mais pelo ranking do que pelas páginas escritas. Mas fiquei curioso pelo autor e fui pesquisá-lo na internet. Descobri que há um site criado por ele com talvez a maior base de dados dos conflitos em volta da terra, tanto antigos como atuais. (Clique aqui para conhecer parte do trabalho) A sua pesquisa, não cientifica, mas mesmo assim estatisticamente extensa, contribuiu para a citação de informações do site em 200 publicações, algumas entre as obras dos maiores autores sobre disputas de todos os tipos, interessantes às Relações internacionais e Ciências Sociais.

Fato é que o livro, embora muito fraco, realçou em mim alguns sentimentos primários que me fizeram viciar nos temas sociais. A História dos países, dos conflitos, das sociedades humanas. Ao lê-lo, percebi que por vezes falta essa motivação. Todos que visitam essa página ou outras da internet sobre política, notícias, Diplomacia, Defesa, se interessam por temas humanos. A grande parte da minha vida acadêmica se deu também buscando compreender mudanças nos comportamentos, dadas por acontecimentos como a Revolução Industrial e a Revolução Comportamental da sociedade. Momentos históricos que em seus caminhos também trilharam um verdadeiro campo de mortes, de pragas e doenças, como retratava o livro sobre atrocidades. Mas para mim, até aquele momento a chama inicial havia cessado, restava somente a análise estatística.

Nas pesquisas sobre os conflitos na terra percebi o retorno do interesse. A compreensão sobre os motivos daquilo se tornaram mais do que necessárias, viciantes. Não buscamos apenas a informação, mas sim a compreensão do que está além do comum. E nos deparamos com temas como Armas Biológicas na Síria, massacres de homens bomba no Iraque, problemas próximos a nós no Brasil. Nos sentimos mal, mas prosseguimos, acreditamos, trabalhamos, nos informamos mais. 


Engraçado pensar os motivos para seguirmos determinado curso, determinada área ou procurar determinada informação na rede. O caminho do conhecimento sobre temas humano é sem volta, vira vicio. Nos deparamos com novos conhecimentos, desconstruímos a nós mesmos completamente. Certa vez uma professora minha fez uma longa entrevista com o que seria sua classe no semestre, perguntando a todos os motivos de se fazer Ciências Sociais. Segundo ela ninguém faz por acaso, todos tem um motivo, uma inquietação. Quando a inquietação é maior que a curiosidade, nasce o sociólogo, o internacionalista, o bem informado.

“Você tem desconforto do que?”, perguntava. Injustiças do sistema econômico? Talvez a fome, a pobreza, ou a falta de educação. As desigualdades de gênero, a falta de voz dos excluídos, a história cortada dos refugiados. O tabuleiro da diplomacia e das guerras. Algo que o tocou. O nosso interesse é vivo. Quebra os muros de casa, da cidade, do modo de enxergar a vida. Logo estamos em meio a complexidade da humanidade, apaixonante mesmo que por vezes feia.

Como no caso da ativista africana que denunciou o uso de mulheres aidéticas como Armas Biológicas em seu continente. Nos últimos anos, muitos saíram ao mundo denunciando esse tipo de prática. A AIDS e a sua proliferação servem como armas eficientes de guerra nesses locais. A cultura de estupro, muito disseminada pelos vencedores das guerra sobre os civis, então se volta contra o agressor, enfraquecendo exércitos e virando batalhas. Por fim, independente dos vencedores, a guerra mostra o flagelo da humanidade. E quanto há para se entender, para se propor, para melhorar? Talvez apenas para se conhecer, e somos nós que que tomamos conhecimento.

Às vezes temos acesso à informação e lemos apenas os fatos ou os números. Em outras vezes, refazemos as nossas motivações e interesse, no renascimento do vicio pelo conhecimento humano e do ser humano. Aí é quando os números se convertem em compreensão. Temos sorte em em fazer parte de um grupo em que se compartilham e se discutem esses problemas e informações.


Categorias: Conflitos


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