Viajando

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Ahmadinejad fez um tour pela América Latina na semana passada. E não, ele não estava de férias. Foi um “turismo” diferente, conhecido no jargão da diplomacia como “giro diplomático”. Pela quinta vez, o presidente iraniano vem ao “novo mundo” e, dessa vez, sem parada no Brasil. Visitou a Venezuela, a Nicarágua, Cuba e o Equador. Todos eles países que, no plano discursivo, colocam-se contra a política externa estadunidense.

Evidente que qualquer visita do polêmico Ahmadinejad já agrega interesse, mas, essa, em específico, destaca-se pelo contexto no qual está inserida. Contexto esse no qual a pressão internacional sobre o Irã nunca foi tão grande. O seleto condomínio das grandes potências tem ampliado consideravelmente as sanções internacionais contra o país com o intuito de impedir a ampliação de seu programa nuclear que julgam ser para fins bélicos. Os países da União Europeia adotaram mais medidas coordenadamente, os Estados Unidos unilateralmente e ainda acirrou-se a pressão para que outros países façam mais.

Enquanto isso, do outro lado, o Irã deu claros sinais que o aumento de sanções seria um tiro que sairia pela culatra (o Japão, por exemplo, já tem mostrado os limites das sanções). Ahmadinejad buscou mostrar que os grandes prejudicados com a redução de seu comércio seriam as próprias potências ocidentais quando especulou-se sobre um possível fechamento do estreito de ormuz, principal rota de transporte de petróleo mundial. A despeito de a diplomacia iraniana afirmar que o país jamais teve a intenção de impedir a rota de petróleo, é interessante notar como esse xadrez de sanções internacionais funciona em um mundo tão interligado. Basta que se concentre em apenas um objetivo que logo se pode ver cercado e em xeque.

Em um contexto de grandes pressões, além de tentar se defender delas como pode, nada mais natural do que o Irã buscar fortalecer os laços com os países que possuem uma perspectiva ideológica semelhante. E, da mesma forma, a facilidade que o Ahmadinejad tem de se aproximar da América Latina pode significar que, politicamente, o Tio Sam tem visto sua influência diminuir na região (para um artigo sobre isso, clique aqui). Já a não vinda para o Brasil dá indícios que a postura da Dilma é bem diferente da de Lula em se tratando de Irã e Ahmadinejad não se sente confortável de tratar de alguns assuntos com o governo brasileiro mais (não há tensões, anda apenas diferente…).

Como disse antes, uma viagem do presidente iraniano à América Latina sempre chama a atenção. Dado o contexto, essa muito mais. Não foi a primeira vez que ouvimos de sanções e de visitas do governo do Irã, nem será. Enquanto o Ahmadinejad e o Tio Sam tiverem com que barganhar, essa novela irá longe…


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