Vermelho de vergonha

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Caro leitor, se acha que a corrupção é ruim por aqui no Brasil… bom, digamos que não seja exclusividade nossa. Nos últimos anos, a China foi invejada pelo crescimento econômico e pujança, mas isso veio acompanhado de um legado bastante nefasto, que é como uma consequência indesejada dessa máquina que impulsiona o desenvolvimento de lá. 

Nessa semana, o ex-dirigente do Partido Comunista, Bo Xilai, foi formalmente indiciado por acusações de corrupção. Não foi pouca coisa – trata-se do maior escândalo de poder no país nas últimas décadas. Bo era não apenas um político relativamente novo, na mais alta esfera do poder chinês, e que mandava na maior cidade do país, mas também o rival direto de ninguém menos que o ex-primeiro ministro Wen Jiabao (que teve papel predominante na sua queda). Trocando em miúdos, um assessor de Bo se envolveu numa tentativa de asilo nos EUA no ano passado que acabou parando em uma investigação sobre o assassinato de um empresário norte-americano. Descobriu-se que a mentora havia sido a mulher de Bo, que já foi até condenada à morte pelo crime (mas teve a pena comutada para prisão perpétua), e a investigação foi parar em Bo e seus esquemas de abuso de poder e subornos. 

O que resulta de tudo isso? Primeiro, um potencial sucessor a cargos mais importantes sai de cena (literalmente, não é visto em público há mais de um ano) e deixa um cenário mais previsível quando houver um novo ciclo presidencial na China. Segundo, e mais sério, o risco econômico que essas denúncias podem acarretar. Por exemplo, temos uma grande empresa farmacêutica que foi pega em um esquema de propinas a oficiais e autoridades chinesas. Imediatamente a matriz tenta controlar os danos e chega até mesmo a se afastar da filial chinesa problemática. Pode dar lucro por lá, mas deixa uma imagem muito ruim fora do país. Mesmo a denúncia de Bo foi um choque para os mercados. 

O problema é que a corrupção praticamente faz parte da estrutura de poder na China (o país está ranqueado numa posição bastante ruim em índices de percepção de corrupção) e empresas que vão para lá levam isso em conta, pois resultam em gastos “por fora”. E isso em um país que precisa de taxas de crescimento anormais e começa a sofrer, com a necessidade de estímulos cada vez mais constantes, é um sinal bastante desanimador. 

Mas e a corrupção em si? A grande crítica à condenação de Bo é que se ele caiu em desgraça, quanto pior não fizeram aqueles que impulsionaram sua carreira. Quando serão pegos? Ou melhor, serão pegos? É possível enquadrar padrões morais ocidentais nessa sociedade de padrão único que é a chinesa atual? O fato é que os próprios dirigentes ficaram constrangidos pela denúncia, e devemos lembrar que política ainda se vale muito de prestígio. Por mais que haja restrições à expressão na China, as denúncias tiveram seu impacto na mídia, e uma população com níveis de vida cada vez melhores vão cobrar por bons serviços – e bons políticos, de um modo ou de outro. Este é apenas mais um desafio para o enorme quebra-cabeças que ainda é o futuro do Império do Meio.


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