Verdades gregas

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Segundo Sófocles, poeta trágico grego (495-406 a.C.), “a verdade é sempre um argumento mais forte”. A busca de algumas verdades envolvendo a Grécia e a União Européia tem se mostrado em alta nos últimos dias. É preciso, então, refletir acerca da atual situação grega no cenário internacional, bem como de sua polêmica no que tange a Zona do Euro (motivo de preocupação ao primeiro-ministro grego, George Papandreou – foto acima).

Com a bolha do setor imobiliário em 2007, sabe-se que o mundo inteiro enfrentou dificuldades financeiras. A “crise global” assolou, portanto, fortemente também a Grécia, país que vem encarando desde então enormes problemas orçamentários. Para se ter idéia, a dívida grega acumulada (que vence nos próximos meses) supera os 16 bilhões de euros e preocupa investidores em geral.

O cerco se aperta em torno da Grécia para sua recuperação econômica, e o apoio do bloco em prol da estabilidade da Zona do Euro tem sido discutido nas últimas semanas. Contudo, a verdade é que o euro está ferido. O grande endividamento da Grécia (e de países como Portugal e Espanha) desafia a força da moeda européia face ao dólar no mundo.

E se não bastasse a complexa situação financeira em que se encontra a Grécia, o New York Times lançou ao mundo essa semana um questionamento sobre a verdade envolvendo a própria entrada do país na Zona do Euro no ano de 2001.

Segundo fontes do jornal, a Goldman Sachs e outros bancos de investimento norte-americanos teriam participado de um esquema de acordos financeiros com o governo grego naquele ano para mascarar o real estado das finanças do país (que seria inadequado às fortes exigências européias para se fazer parte da Zona do Euro). A Grécia nega qualquer tipo de ‘golpe’ neste sentido, porém, o buraco parece ser mais fundo do que parece e mais areia deve ser lançada ao ar nos próximos dias.

No momento, espera-se que a transparência seja o objetivo das partes envolvidas. O mundo, especialmente europeu (com destaque para França e Alemanha), exige explicações sobre o assunto por parte do governo grego e das agências financeiras norte-americanas. Políticos alemães chegam, inclusive, a afirmar que a própria entrada da Grécia na Zona do Euro foi um erro. Será?

Verdadeiro mesmo é o homérico desafio de manter uma moeda única forte e estável em países com soberania reconhecida e características fiscais diferentes, especialmente em tempos de crise financeira e polêmicas fiscais. No caso analisado, os personagens envolvidos são grandes, o cenário complexo e as conseqüências das ações imprevisíveis. Parece até tragédia grega. Aguardemos, pois, seu desfecho.


Categorias: Economia, Europa


2 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

Ótimas observações, Álvaro ! Realmente, talvez essa "tragédia grega" seja um momento paradigmático para a União Européia como um todo, no que se refere aos aspectos fiscais do bloco... [Estou particularmente interessada em saber o "final" dessa história, viu ?!]Até mais ! ;)

Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

Realmente, é um dilema essa situação: se a Grécia cair, leva boa parte da UE junto, mas não pode receber ajuda por que se pôs nessa situação por conta de suas maracutaias e países como a Alemanha não querem pagar esse pato; seria o momento da reforma de coordenação econômica da UE? Como diz Gilles Lapouge, essa crise pode ser um primeiro passo para a supressão de divergências e consolidação de uma política econômica verdadeiramente comum na Europa - e passar por cima de "soberania e características fiscais diferentes"