Verão russo, outono tchetcheno

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A situação em Moscou está quente. E não apenas pelos raios solares. Na manhã desta segunda (madrugada no horário de Brasília), um duplo atentado suicida alarmou a capital russa, causado pela explosão de duas mulheres-bombas. O primeiro ocorreu na estação Lubianka, localizada na Praça Lubianka, que coincidentemente abriga a sede do Serviço Federal de Segurança, sucessor da antiga KGB – o equivalente soviético da CIA norte-americana. Já o segundo foi executado na estação Park Kultury, cerca de 43 minutos após o anterior, na mesma linha do metrô. Resultado: 38 mortos e 64 feridos, até o momento. (veja a cronologia dos ataques aqui e entenda mais o conflito aqui)

E o tal do terrorismo volta à tona. Não apenas o governo russo, como a comunidade mundial, classificou o ato como terrorista e o repudiou (aqui, aqui, aqui e aqui). Até aí, tudo se encaminha dentro da práxis da política internacional. Todavia, conviria o questionamento: o que leva duas jovens mulheres – elas são importantes armas -, com uma vida pela frente, a transformarem seu próprio corpo numa mortífera arma? Num sentido estrito, responderíamos: a sede de vingança. Num sentido mais amplo, elas lutam pela libertação da Tchetchênia, uma antiga província soviética que segue como um satélite russo, sem ter conquistado a sua independência. Aliás, conquistaram, mas por um brevíssimo período, e tal ato irresponsável levou a morte de pelo menos 80 mil tchetchenos, entre 1994 e 1996. E tem até gente dizendo que as mulheres-bombas contaram com apoio de militantes afegãos (aqui).

Desde então, a luta pela independência da Tchetchênia é conduzida por grupos separatistas e o “terrorismo” se tornou o meio empregado para a realização dessa causa. Evitemos os exageros da história, na maioria das vezes escrita pelos vencidos. Por que o interesse russo numa região diminuta e religiosamente diferente de Moscou? A Tchetchênia, muito longe de ter afinidades nacionais com a Rússia, possui importância estratégica para os oleodutos russos. Por causa deste interesse irrenunciável há o conflito: riqueza contra liberdade. E verdade seja dita, nos últimos quinze anos, se somarmos todas as mortes provocadas por atentados tchetchenos à Rússia, inclusive o fatídico episódio na escola de Belsan em 2004, a cifra de destruição russa não será atingida. Isto não é terrorismo, afinal, todo país detém o monopólio da violência organizada em seu próprio território.

Uma das medidas para o combate do terrorismo, previsto na Estratégia Global de 2006, no seio da ONU, é o respeito aos direitos humanos e a tolerância. Curiosamente, o presidente russo Medvedev anunciou em agosto do ano passado a ampliação da campanha contra o terrorismo, elevando as operações militares contra os separatistas tchetchenos, manobra que culminou na matança indiscriminada de dirigentes rebeldes e até inocentes. Eis a fórmula: aumentar a segurança da Rússia proporcionalmente ao aumento da insegurança da Tchetchênia. Seria praticamente impossível deixar de imaginar qualquer reação por parte da última; na internet, os separatistas ameaçam cometer novos atentados até dezembro. E realmente vão acontecer, se a resposta russa for implacável, como previu o premiê Putin (aqui). Agora sim o Putin está “putin, putin”, não é, Andrea?! (vejam uma análise sobre a situação no Cáucaso aqui)

Por certo, o conflito poderia ter sido eliminado na década passada, em seu nascedouro, se a comunidade internacional viesse a reconhecer a independência tchetchena, algo que só faria os Estados Unidos e a Arábia Saudita no novo milênio. Hoje a solução está longe de ser alcançada. A Rússia esqueceu que o império soviético caiu e a Guerra Fria acabou; a herança passada não governa o presente. Com efeito, na meteorologia das relações internacionais, encontramos um paradoxo: Moscou segue em seu verão, sob a iminência de ataques tchetchenos, e Grozny, em seu outono, caindo vidas e esperanças da distante árvore chamada nação.


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