Velhos caminhos com novas palavras ou novos caminhos com velhas palavras?

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Há um tempo temos ouvido várias análises sobre a forma que a presidente Dilma tem conduzido a política externa. Análises que oscilam entre os extremos da total ruptura com o governo anterior até uma simples mudança de governante. Nesse contexto de muita dúvida e muita discussão, constantemente pergunta-se: está bem, mas se algo mudou em tão pouco tempo, o que foi, e o que de fato poderia mudar?

Uma questão bem difícil de responder. Mas podemos tentar dar algumas indicações. Na política externa brasileira existe uma linha que vem sendo seguida e mais desenvolvida desde os dois últimos anos do governo FHC. Baseada na ideia de que o Brasil tem que inserir internacionalmente não só pela participação e defesa de posturas multilaterais, mas sim advogando um multilateralismo que garantisse direitos iguais a todos e exigisse o mesmo de todos. Uma forma bem propositiva de se inserir.  

Essa abordagem foi gestada pelo Itamaraty ao final do governo FHC e foi levada a diante por aquele toque de diplomacia presidencial (de presidente fazendo papel de diplomata e defendendo os interesses do país mundo afora). Bom, a partir de Lula isso foi levado mais adiante ainda. Da iniciativa de criação do G-20 (representante dos países em desenvolvimento) no governo anterior, ao reconhecimento deste como um dos principais foros de discussão de questões mundiais de agricultura da OMC. De um Mercosul institucionalizado, para uma nova integração política, a Unasul.  

Agora, tendo isso claro, é aí que começam de fato as perguntas. Ora, pode-se seguir uma mesma abordagem e chegar a lugares diferentes. Como há muito tempo já disse Rousseau, pelos mesmos caminhos nem sempre se chega aos mesmos fins. Se Lula, fazendo uso de tantos improvisos e declarações polêmicas, foi capaz de imputar maior importância à aliança com países em desenvolvimento, a famosa relação “Sul-Sul”, Dilma não tem sido diferente.

Defendendo ainda a reforma dos grandes organismos internacionais, advogando formas alternativas de solução dos problemas que não sejam a força (por isso absteve-se na questão do uso da força militar na Líbia) e relações mais próximas e coordenadas com os BRICs e os IBAS, mantém a mesma lógica do governo anterior. Talvez, pudéssemos dizer que o campo dos direitos humanos seja de fato uma nova postura. O Brasil, anteriormente, apenas abstinha-se em votações sobre violações em países autoritários e hoje já demonstra uma posição diferenciada. Até mesmo votou a favor de maior fiscalização no Irã no Conselho de Direitos Humanos.

Bom, tentando responder as perguntas do começo, vale lembrar que nada é certo e que há apenas pistas que podem levar a conclusões diferentes. A questão é que, ao que parece, temos muito mais do mesmo. Até agora parece que existem algumas diferenças mais na gestão pessoal dos presidentes e na abordagem de direitos humanos. Apesar de termos indicações e precisarmos de mais tempo para avaliar, ainda cabe a pergunta: seriam os velhos caminhos com novas palavras ou novos caminhos com velhas palavras?

[Aos que se interessarem, seguem links de artigos de opinião sobre o assunto: 1, 2, 3, 4]


Categorias: Polêmica, Política e Política Externa


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