Vazamentos

Por

E Obama conseguiu mais uma dor de cabeça com um vazamento. Não, não tem nada a ver com o Golfo do México. E na verdade, não é uma dor de cabeça exatamente nova, visto que o Afeganistão já era um desafio tremendo quando foi parar na Casa Branca. Mas, com o vazamento de documentos secretos das operações no país asiático, criou-se um constrangimento não só para os EUA, mas para outros países atuantes na coalizão como o Paquistão.

O causador dessa celeuma foi o site Wikileaks, que ganha notoriedade por sua busca até as últimas conseqüências do ideal da imprensa livre, e que ficou famoso recentemente devido a revelações bombásticas sobre fuzilamento de civis no Iraque. Os documentos divulgados (mais informação aqui) não são exatamente secretos, mas encontram-se na categoria dos que não deveriam vir a público tão brevemente: incluem informações provenientes de embaixadas, oficiais de inteligência e até mesmo soldados, entre outros, revelando datas e locais específicos da maioria das ações que envolveram o uso de força letal pelas tropas norte-americanas no período entre 2004 e 2010. Há também outros tipos de informação como relatos de corrupção e participação de tropas paquistanesas no auxílio de insurgentes, e até ligações com a Al-Quaeda. Os dados vazados apenas confirmam do que já se suspeitava há muito, das falhas e dificuldades enfrentadas pela coalizão, mas a comparação com as declarações “oficiais” acerca do conflito é assustadora. Mortes acidentais de civis são re-classificadas como de insurgentes, e há até relatos de “esquadrões da morte” (quem diria, tão corriqueiros no Brasil!) que caçam lideranças insurgentes sem amparo judicial nem ligar de passar por cima de alguns cadáveres civis pelo caminho. Apesar da falta de corroboração jurídica, o criador do site é enfático ao dizer que há sinais evidentes da prática de crimes de guerra.

A Otan se calou, os EUA relataram seu descontentamento com o vazamento e o Paquistão contesta a veracidade de algumas informações, mas o estrago já está feito. O Paquistão já não é um mar de rosas, e Washington deve encarar o clamor contra uma empreitada cada vez mais impopular e que aparenta não ter fim. E mais ainda está por vir, com a promessa da liberação de mais 15 mil novos documentos secretos em tempo hábil.

Há de se convir que existe um dilema ético quanto à divulgação desses documentos. Eram papéis secretos de um governo, e não importa qual tenha sido a intenção dos que forneceram os documentos ao site, se forem descobertos não devem esperar menos que a pena capital. É o que se espera quando a declaração do governo afirma que o vazamento põe em risco a vida de combatentes norte-americanos e a segurança nacional. Mas o site acredita que as informações não trazem perigo e a divulgação das restantes dependerá da situação da segurança no Afeganistão.

O interessante disso tudo não é a revelação em si, mas o modo como a informação está fluindo. Houvesse um Wikileaks à época da invasão do Iraque, teria sido revelada a inexistência de armas de destruição em massa mais cedo? A metodologia de trabalho dessa fonte ainda pode parecer muito controversa a alguns – afinal, optar-se-á pela liberdade de informação como ética universal ou pela soberania do Estado em controlar informação estratégica pelo bem da nação? Não importa qual seja o julgamento, o fato demonstra a importância dos fluxos computacionais na propagação de informação como verdade inconteste nos dias de hoje, e os Estados devem adequar-se a esta realidade em que a verdade pode fluir livremente, quando os meios são bem-direcionados. O resultado dessa divulgação pode, por exemplo, ser uma mudança de percepção da opinião pública, mas o que importa realmente, segundo o criador do site, Julian Assange, é que haja a compreensão do que ocorre no conflito e a mudança de postura política dos envolvidos. O povo afegão aguarda ansiosamente por isso.


Categorias: Ásia e Oceania, Estados Unidos, Organizações Internacionais, Oriente Médio e Mundo Islâmico


1 comments
Mário Machado
Mário Machado

O mais impressionante é que tudo que foi vazado era conhecido, sem os detalhes é óbvio. Principalmente as operações especiais de assassinato de líderes insurgentes, que era abertamente dita por analistas militares na CNN, ou na FOX News (atrairei a fúria daqueles de viés esquerdista?). Alias faz parte da grande estratégia. A novidade são os meandros táticos agora divulgados.Como analista e estudioso das relações internacionais é uma alegria esse vazamento. Se eu fosse membro do governo Obama quem vazou estaria a ser caçado agora e receberia a máxima pena para traidores. Abs,