Vazamento de confiança

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Se ainda restava alguma ilusão ou idealismo quanto às atividades diplomáticas, elas cairam por terra semana passada. Semana passada, o Álvaro publicou um post tratando do tema do vazamento de documentos diplomáticos secretos dos EUA no WikiLeaks, mas a repercussão está longe do fim, e resta a pergunta: o WikiLeaks traz mais transparência ou torna esse meio ainda mais fechado com suas publicações?

A semana que abalou a diplomacia começou na verdade antes da divulgação dos documentos. O fundador do WikiLeaks (o site que há quatro anos publica informações confidenciais de toda a sorte, buscando expôr condutas escusas e trazer transparência), Julian Assange, há muito anunciava um vazamento sobre a política externa ameticana. “Precavendo-se” contra esse fato, o governo já havia de antemão avisado os chefes dos países.

Os podres de todos estão expostos. Kirshner teve sua saúde mental questionada, a Rússia de Putin apareceu como corrupta, ONU espionada, Israel fez planos para um golpe de Estado no Irã… Sobrou também para o Brasil. Celso Amorim afirmou que Chávez mais late do que morde, e um outro documento confidencial americano coloca que “O Brasil acha que está em concorrência com os Estados Unidos e desconfia das intenções americanas. (…) O Brasil tem necessidade quase neurótica de ser igual aos Estados Unidos e de ser percebido como tal”.

Trata-se do 11 de setembro para a diplomacia, diz o ministro das relações exteriores italiano. Depois do vazamento, inúmeros ataques ao site do WikiLeaks foram promovidos, de maneira a tirá-lo do ar ou torná-lo lento. De repente a Interpol resolveu emitir uma ordem internacional de detenção contra Julian Assange, por supostos delitos sexuais na Suécia. Detalhe – a ordem é uma “notificação vermelha”, o nível mais alto da Interpol, divulgada para deter, mesmo que provisoriamente, pessoas procuradas internacionalmente e com fins de extradição.

A base da diplomacia – a confiança – estará por muito tempo prejudicada. Afinal, não estão em jogo apenas a visão dos americanos sobre cada país, mas diálogos e visões de integrantes dos governos de cada um. E por paradoxal que possa parecer, as democracias são as mais afetadas com vazamentos, graças a variedade de atores e interesses envolvidos nas mesmas. Imagine um vazamento de documentos da China – provavelmente, o ‘vazador’ seria mais que exemplarmente punido. A exposição tão viceral de tudo o que pensam e almejam os EUA com certeza dificultará bastante a execução de seus objetivos de política externa.

Mas então, como em democracias não temos tal transparência? Como garantir a liberdade de informação? A ‘contabilidade’ dos governos em regimes democráticos é responsabilidade dos Estados. Ocorre que esse direito a acessar tais dados deve se restringir ao próprio governo, e não informações discutidas com países estrangeiros – regras de sigilo internacionais.

Trata-se, portanto, de uma contradição inerente ao processo de abertura que o WikiLeaks gera: menos abertura graças à quebra de confiança na diplomacia tradicional. Ao ter segredos expostos, a tendência de reação em qualquer âmbito é tornar o acesso a informações ainda mais restrito. E que não nos enganemos achando que os EUA são os bandidos do cenário internacional. Se cavássemos, todos os países se apresentariam da mesma forma. Faz parte.


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