Vamos falar sobre os Ciganos

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“A globalização aproximou todas as culturas”. Essa é uma das frases mais comuns que ouvimos em conversas descompromissadas do dia a dia. Em parte uma afirmação correta. Longe de imaginar o desconhecido de novos lugares, do “descobrimento de novas Terras e povos”, tudo se parece igual. Então começamos a pensar que o restou da diversidade de povos no mundo foram pequenas diferenças, o restante de singularidades que ainda os caracterizam. 

Como bons ocidentais, esquecemos populações inteiras, completamente distintas de nós. Esquecemos a África, minimizamos as superpopulações dos países asiáticos, reduzindo aos poucos imigrantes que conhecemos. Talvez tenhamos pontos em comum aos europeus. Copiamos em parte o modo de vida americano. Mas não temos ideia de quem é o camponês chinês, que representa cerca de 10% da população mundial. Como não o conhecemos e não fazem parte do nosso raciocínio de globalização, os esquecemos.

Mas não precisaríamos cruzar o mundo em busca de populações exóticas ou excluídas para encontrar exemplos desse tipo de esquecimento moderno. Poderíamos usar como exemplo o Brasil. E não falo de tribos indígenas ou povoados distantes, sem fácil conexão com a “civilização”. Fazemos o mesmo com quem vive em nossas cidades, por vezes são nossos vizinhos de bairro ou até mesmo de rua: os Ciganos. Uma junção de diversos povos nômades, compartilhando da mesma língua, o Romaní. 

Os ciganos são bastante peculiares. A maior parte da sua historia é baseada na exclusão de qualquer território pisado. E os territórios são muitos. Talvez os Ciganos tenham sido o primeiro exemplo de estereotipo da ficção literária e do imaginário popular. O grande retrato de um povo inferiorizado. Muito antes dos Nazistas publicarem em suas revistas caricaturas pejorativas de judeus, os Ciganos cumpriam papéis nessas publicações de assassinos, artistas de circo, piratas, farsantes, cartomantes, charlatões. Sempre pessoas a serem evitadas ou eliminadas. Diz-se que o ser humano, diante do medo do desconhecido, tende a cobrir o outro de véus. Uma boa metáfora aos muçulmanos, já literalmente vestidos da forma como os imaginamos ou desconhecemos. Melhor ainda para representar os ciganos. 

Interessante que intactos aos diversos ataques que sofreram de todos os Estados em que viveram, permaneceram em comunidades bastante exclusivas, bem cristalizadas, defendendo a sua cultura e crenças. E durante décadas passaram distantes de obrigações impostas. Não como os Amishes ou índios, reconhecidos juridicamente como donos de terras, de uma própria lei, da liberdade e reconhecimento. Os Ciganos se mantiveram unidos sob fortes ameaças, entre a cruz e a espada.

 No Brasil, entre as antigas discussões que negaram a legitimidade do povo cigano, estava a afirmação de que “não eram um povo em si, mas sim várias populações que compartilhavam ‘apenas’ da mesma língua”. Que grande surpresa isso não representar um povo para as autoridades brasileiras, assim como de muitos outros países. Afinal, não seria o Brasil o maior exemplo de torre de Babel em que diversas culturas compartilham  a mesma língua, e apenas por esse motivo se formaram como sociedade?  

Assim, os ciganos foram lançados ao maior abismo possível da exclusão. Maior que o do ódio, como sofreram os judeus. Foram jogados ao esquecimento, à falta de identidade. Invisíveis, seguiram como alvos de todas as barbáries possíveis. Estiveram nos massacres das guerras desde o século X, nos êxodos de populações, na Segunda Guerra Mundial, sofrendo um holocausto tão terrível quanto qualquer outro povo odiado pelos alemães. Mas um holocausto esquecido, nunca noticiado. 

Sempre comparado a ratos, como uma população de uma raça ou cultura inferior. Sem uma Terra, sem lobby político, sem órgãos de Direitos Humanos atentos, sem defensores. Massacrados pela Direita, pela Esquerda, pelo Centro e por Comunistas. Também por Ditaduras e Regimes Democráticos. Vezes mais, vezes menos. Vezes sem direito à dignidade, vezes sem direito à vida.

Mesmo diante de uma situação bastante negativa, o que é interessante é que os ciganos por muitas vezes deram as costas a qualquer tipo de oportunidade de se misturar às populações dos países em que viveram. Não deixaram suas crenças e muito menos se prepararam para o mundo globalizado. A falta de escolaridade é uma das provas dessa afirmação. O analfabetismo veio bater forte no modo de vida cigana no mundo capitalista, jogando a população ainda mais na pobreza. O seu maior líder, autointitulado “rei dos ciganos”, Florín Cioaba, foi um dos primeiro a tentar modificar essa rebeldia contra qualquer tipo de instituição do Estado. Também aboliu o casamento de pessoas menores de 15 anos, muito comum em sua cultura. Pensou assim diminuir a exclusão Cigana no mundo moderno, a diminuição do preconceito contra seu povo. Esqueceu que não é nada moderna a segregação Cigana. 

A cultura, conhecida como anacrônica ao mundo atual e a obscuridade do modo de vida cigano fizeram com que se construísse a ideia de um povo negativo, mais uma vez. Logo, o cigano ganhou o papel moderno de único portador de fé em crendices, da ignorância, aquele retrato da mulher que faz leitura de mãos no centro decadente da grande metrópole. O que realçou ainda mais a visão de povo a ser ignorado. Diante de tantas populações nada esclarecidas, como a do Brasil, que desafiam o bom senso com discursos religiosos contrários ao relacionamento homoafetivo e mais recentemente, de forma absurda, contrários ao direito ao aborto em casos de estupro, o Cigano ainda se tornou a “antiguidade indesejada”, o bode expiatório do desejo progressista.

Distante da modernidade, do Estado, das elites e até dos “descolados”, os Ciganos permanecem esquecidos. Sofrendo massacres em parte da Ásia e leste europeu, excluídos no restante da Europa e nas Américas. Não saem em jornais, não há pesquisas acadêmicas sobre eles, nem história de seu povo. Não são incluídos em estudos nas escolas sobre migrações, muito menos lembrados em sua existência. Permanecem apenas no imaginário do artista de circo, da cartomante, da dançarina exótica.

Mas os Ciganos desafiam o silêncio e continuam a ser uma comunidade bastante restrita, mantendo laços de proximidade que protegem a sua cultura até mesmo da igualdade globalizante. E seguem às sombras, compondo o mais curioso retrato de povo do mundo globalizado.

Deixo alguns links para quem se interessou sobre o tema:

Embaixada Cigana no Brasil e um pouco de história desse povo.

Construção de muros anti-ciganos na Europa, exemplo muito comum da exclusão atual.

O Holocausto Cigano, ocorrido junto ao judeu pelos Nazistas, mas pouco noticiado.

Discussão sobre a exclusão Cigana da sociedade, dos noticiários e das pesquisas sociais e históricas.

O Cigano no mundo globalizado.


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica


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