Vai um livro aí?

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A vida moderna certamente oferece muitas comodidades. Entre elas, talvez uma das principais, seja a possibilidade de comprar diversos produtos sem sair do conforto de casa.  Pois bem, o governo argentino decidiu inovar. Não bastasse outras tentativas de dificultar importações, como no caso da carne suína brasileira, agora se tentou agregar barreiras a livros e revistas.

Imaginem a situação: um cidadão argentino compra um livro advindo do exterior e é obrigado a retirar seu pedido no aeroporto de Ezeiza, localizado a 35 kilômetros de Buenos Aires, após pagar devidamente uma taxa imposta. Em outro cenário, as editoras se veriam obrigadas a contratar um despachante, na medida em que o processo na aduana para materiais impressos seria o mesmo aplicado a mercadorias, digamos, mais complexas. O mais intrigante é que o mercado editorial argentino é composto por quase 80% de livros importados. Desta forma, o impacto se faria sentir de forma imediata.

Segundo a versão oficial, no entanto, criou-se o novo procedimento com o intuito de proteger a saúde dos hermanos. Buscava-se limitar a difusão de livros com conteúdo de chumbo superior a 0,06%. Para outros, a verdade reside na tentativa de aumentar a produção editorial nacional e impedir a saída de dólares do país rumo ao exterior. No final das contas, já revogou-se o procedimento que obrigaria os argentinos a buscarem seus materiais literários no aeroporto, tal qual fazemos com nossos amigos e familiares. Segue somente a preocupação com o chumbo nos livros.  

Tudo isso justamente na Argentina, cuja capital possui mais de 1000 livrarias. Bom, diante do risco químico dos livros deve ser melhor mesmo não ler nada. Melhor esperar uma solução nacional, a qual muito possivelmente deve estar a caminho. Ironias a parte, desta vez foram longe demais. A tentativa de controlar a cultura, a expressão do pensamento e a arte – sob o formato literário – nunca poderia funcionar. Muito menos na Argentina, que, a despeito de todas as crises recentes, se defende através da cultura e se orgulha do nível educacional de sua população. Melhor que o desatino durou poucos dias, o que será que eles esperavam?   


Categorias: Américas, Cultura


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