Vai e vem

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Não poderíamos deixar de comentar sobre o assunto do momento, o inacreditável ataque à escola no Rio de Janeiro está mobilizando a mídia. Isso por que, como sempre, vamos dar o enfoque internacional à questão. A chacina desse atirador maluco pode lembrar desse tipo de massacre em outros países, e não apenas no celeiro dos serial killers, os EUA – nesse fim de semana mesmo ocorreu algo parecido em um shopping center na Holanda. Mas o foco é, na verdade, o tráfico de armas leves, em que o Brasil é um dos protagonistas mundiais.


Poderíamos entrar nos méritos do desarmamento doméstico – não deixa de ser uma medida importante (como uma pesquisa apontou, o controle da circulação de armas irregulares tem relação direta com a diminuição de assassinatos, na proporção de 18 para 1), mas o problema maior ainda é o tráfico ilegal de armas. Boa parte dessas são desviadas do comércio legalizado (há, inclusive, relatos de criminosos que se filiam como caçadores e esportistas para facilitar esse desvio), mas a maioria certamente vem do exterior através das nossas fronteiras pouco vigiadas. A grande ironia, no caso, é que grande parte dessas armas e (especialmente) munições que adentram o país tem origem… no próprio Brasil!


Não somos os maiores compradores de armas do mundo (esse mérito é da Índia atualmente), mas estamos entre os 10 maiores produtores e exportadores de munição e peças. A sacada é que vendemos esses “insumos” para o exterior (EUA e Europa) e eles retornam ilegalmente pela América do Sul. É um mercado bilionário, em que se destacam países “bonzinhos”, sem muita fama de militarização (como Bélgica, Espanha e Áustria), mas é a causa de cerca de 90% das mortes violentas entre civis pelo mundo. E são relações em que a relação pragmática entre comprador e vendedor é mantida até as últimas conseqüências. O caso mais recente e emblemático disso é a Líbia – o grupinho de amigos europeu que agora está às turras com Kadafi vendia boa parte das armas que ele usava contra os civis até poucos dias antes de sair a resolução da ONU contra o ditador. Negócios, negócios, amigos à parte.

O massacre da semana passada foi uma das coisas mais chocantes que aconteceu no Brasil recente, mas é só um exemplo cruel de um problema que vitima o mundo todo (algo em torno de duzentas mil vítimas por ano). O controle desse comércio macabro existe, mas é pouco eficaz, especialmente na parte da reentrada no país, e por isso se torna uma das maiores ameaças (e desafios) à segurança no século XXI.

Dois relatórios interessantes sobre o tema aqui e aqui.


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