Uma virada irônica

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A Líbia volta a ficar no centro das atenções do mundo. Enquanto a coisa pega fogo nas redondezas, como na Síria (onde persiste o jogo de afaga-bate da Assad contra os manifestantes, em que prevalece claramente o “bate”) ou em Israel (onde a trégua de dois anos com o Hamas foi rompida após os eventos infelizes da última semana), a queda de Kadafi é iminente (e considerada até mesmo inevitável).

Indícios não faltaram. Na última semana, a embaixada líbia em Brasília foi tomada por manifestantes. Agora, foi a vez de embaixadas na Turquia e na Bósnia. E até mesmo os próprios embaixadores na Síria abandonaram seu governo, reconhecendo o Conselho Nacional de Transição (leia-se: rebeldes) como legítimo. A situação atual favorece os rebeldes, que já teriam tomado pontos cruciais da capital e capturado três filhos de Kadafi (inclusive um deles, Saif al-Islam, a exemplo do pai tem um mandado do TPI contra eleEssa pode ter sido o golpe decisivo contra o governo, mesmo por que não se sabe o paradeiro do ditador). Aliás, se der o azar de morrer, podem esperar uma daquelas capas da Time com a foto dele cruzada por um “X” de sangue (recurso já meio banalizado pela revista…). Esteja ele entocado em algum lugar ou fugindo nas sombras em direção ao asilo na Tunísia, esse desmoronamento das principais figuras políticas fez com que as forças governamentais certamente perdessem o ânimo, e explicaria o rápido avanço dos rebeldes e a debandada das forças governamentais, dentro e fora do país.

O que esperar disso? Mais uma vez, efeitos da “primavera árabe” são obscuros. Se em análises anteriores mostrávamos que havia um grande risco da coisa se tornar um caos em meio ao vácuo político, hoje talvez haja razão para um pouco de otimismo. Se for seguir o exemplo de Egito e Tunísia, o resultado menos pior traria um governo pouco coeso e que talvez chafurde um pouco no meio da corrupção, mas ainda assim uma situação preferível ao sectarismo. A grande vantagem da Líbia em comparação aos demais países é o fato de que seu governante (possivelmente) deposto não é a figura mais popular no cenário internacional, e vários países já consideram o CNT como representante legítimo. Claro que dá uma forcinha a mais o fato de haver muito mais interesses econômicos na Líbia que no Egito ou Tunísia, especialmente europeus, e que já houve uma cruzada internacional nebulosa pra ajudar os rebeldes por meio de intervenção.

Não sabemos como vai ficar a situação na Líbia. Muito menos se os objetivos dos revoltosos (como melhora de vida, etc.) vão ser alcançados. Mas é possível que a esperada queda de Kadafi seja a que tenha maior possibilidade de trazer mudanças concretas, com grandes chances de que seja a transição mais organizada (apesar de ser ironicamente a mais violenta) até o momento.


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