Uma vez mais…

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Uma vez mais, os desastres naturais ocupam as manchetes do início de ano. Claro que a desgraça doméstica ocupa uma porcentagem muito maior na nossa mídia, e não poderia deixar de ser diferente, com mais de 600 mortes e milhares de desabrigados. Contudo, parece que a natureza resolveu causar no mundo todo, das tempestades de neve em Nova Iorque às enchentes que cobrem uma área igual à da Alemanha e França somadas na Austrália. Isso abre uma série de questionamentos.

A quem culpar? É justo falar apenas da natureza? O elemento da imprevisibilidade e a força das intempéries são, claro, o elemento principal dessas catástrofes. Por ouro lado, também é muito fácil culpar as pessoas e os governos. No fim das contas, a responsabilidade pode ir de elementos que vão do aquecimento global à ocupação irregular de terrenos. É uma questão tão ampla que acaba sendo impossível determinar exatamente um motivo principal, e a prevenção se torna impossível sem que seja necessário aplicar um plano muito ambicioso e complexo para sanar esse emaranhado de possíveis causas. A única coisa perceptível (e até mesmo um lugar-comum nesse tipo de discussão), no fim das contas, é que pra variar são os mais pobres que pagam o pato.

É fácil comparar tragédias desse tipo ocorridas em países com governabilidade distinta. Basta vislumbrar a reação do Chile e do Haiti aos terremotos que os castigaram ano passado: o Chile já está recuperado, enquanto o Haiti sofre com revoltas, eleições problemáticas, epidemia de cólera e a volta da praga Baby Doc, que roubava dinheiro de ajuda humanitária. Um artigo interessante mostra que existe uma relação perceptível entre corrupção e fragilidade democrática e o número de mortes em desastres naturais.

Outro ponto é o da percepção. Vejam as inundações na América do Sul. A Colômbia enfrenta uma catástrofe de dimensões semelhantes, ou até mesmo piores que as do Brasil – as chuvas torrenciais dos últimos meses, até o momento, causaram menos mortes, mas já arruinaram produção agrícola e deixaram mais de 2 milhões de pessoas desabrigadas. Situação semelhante ocorre na Venezuela. Se esse tipo de notícia passa como nota de rodapé por aqui, quanto mais nossas enchentes devem ser exibidas em alguns segundos do noticiário internacional nos EUA ou Europa, como se fosse algum tipo de incômodo passageiro num mundo distante – enquanto as inundações na Austrália tomam grande parte de seus noticiários.

E é essa justamente a questão: todo ano esse tipo de notícia se repete, pelo mundo inteiro. E as pessoas se acostumam. É sabido que muitos morrerão e pouco se faz. Nos países mais pobres (e propensos à corrupção/democracia frágil), esse filme será repetido indefinidamente enquanto não houver a solução das mais variadas vicissitudes sociais, que vão de habitação a corrupção política – e isso não tem prazo para ocorrer… Enquanto isso, nos países mais abastados, seus problemas são suficientes, cada um na sua, e a falta dessa percepção global dos problemas pode levar a agravar o quadro atual. Debater e (quiçá) reverter as mudanças climáticas? A existência de refugiados climáticos? Fome pela destruição de áreas agrícolas? Uma hora esse tipo de situação sairá do controle. E quando uma atitude for tomada, poderá ser tarde demais.


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Meio Ambiente


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