Uma receita para os "brasiguaios"

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Hoje daremos uma receita que, se seguida à risca, é capaz de resultar em um “delicioso” contencioso fronteiriço. O primeiro passo é pegar um grande tema polêmico em qualquer lugar do mundo. Para nosso caso, vamos escolher a questão agrária. Logo após, é preciso adicionar dois países vizinhos com um histórico de conflitos. Aqueça os dois países com uma pitada de concentração de terras e agronegócio. Não se esqueça de incentivar a imigração com mais oportunidades ao agronegócio, ampliar ainda mais a má distribuição de terras e dedicar uma grande parcela significativa do PIB de um dos países aos produtos primários. Deixe repousar durante algumas décadas, salpique algumas medidas que impeçam a compra de terras por estrangeiros e uma proposta de reforma agrária. Sirva gelado, mas lembre-se que o sabor será sempre quente. 

Apesar de muito pertinente para muitos países, essa breve e jocosa analogia gastronômica, refere-se a um caso muito específico, o do Brasil e Paraguai. Há muito, a questão agrária e os “brasiguaios” tem sido um tema recorrente nas relações bilaterais entre os dois países. Na década de 1960, quando o Paraguai era controlado pela ditadura de Alfredo Stroessner, viveu-se um período de incentivo à imigração pela possibilidade de compras de terras por estrangeiros. Foi aí que começou a história dos “brasiguaios”, brasileiros que adquiriram essas terras no Paraguai a um preço relativamente baixo. 

Uma parcela relativamente alta do PIB paraguaio depende do agronegócio (aproximadamente 20%), mais especificamente da produção de soja. Há quem diga que é responsável por quase 80% dessa produção. Dito isto, já dá pra imaginar o bafafá que existe entre os “carpeiros” (os sem-terras paraguaios) e os produtores rurais. Mais ainda com os “brasiguaios”. Questões como a rivalidade histórica entre os dois países, as diferenças étnicas e os sentimentos de nacionalismo paraguaio são alguns ingredientes que tornam essa receita um contencioso binacional. 

Como dissemos em nosso “como fazer”, basta que se salpique uma nova legislação que proíba a compra de terras por estrangeiros, realizada em 2005, e uma nova de reforma, em 2009, para que a situação se inflame ainda mais. E, como se não bastasse essa mistura toda, o polêmico e religioso presidente paraguaio, Fernando Lugo, resolver demarcar todas as terras para prosseguir com seu projeto de reforma e ver se há alguma irregularidade. Isso foi o estopim recente para que os “carpeiros” ocupassem as terras dos “brasiguaios” e desenrolasse uma grande confusão nas últimas semanas. 

O acirramento dessa questão tem provocado uma reação nos parlamentares brasileiros. Todavia, a diplomacia brasileira ainda não se manifestou publicamente sobre o problema. Esse é um tema que, como mostramos na receita, não se resolve unilateralmente. Envolve história, xenofobia, problemas internos do Paraguai e muitos outros fatores. Talvez a diplomacia do Brasil tenha andado em cascas de ovos e está com medo de espatifar a casca dos assuntos internos do vizinho. Em contrapartida, talvez fosse interessante, se é que o governo já não tem feito isso às escuras, uma maior negociação mais acirrada entre os dois lados. Uma pressãozinha do Brasil não faria mal a ninguém. Mas aí vem à tona de novo as ambições de nova inserção no mundo e a necessidade de apoio regional… Enfim, a questão ainda é bem complexa. E em uma receita com ingredientes desse tipo, somente mudando os ingredientes para se obter um resultado diferente.

P.S.: Confiram aqui sobre um suposto possível plano militar do Brasil para intervir no Parguai revelado pelo Wikileaks.


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