Uma nova ordem mundial

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Esta seria a responsabilidade de Brasil e Irã, na concepção do presidente iraniano Ahmadinejad: criar “uma nova ordem mundial justa”. Isto é possível? Realizável? Indubitavelmente, a preocupação com a ordem na política mundial está no centro da litosfera de assuntos que circundam as relações internacionais. Teóricos, acadêmicos e tomadores de decisões, como navegantes intrépidos desse turbulento – e ao mesmo tempo vasto – campo de conhecimento, devem-se ater à questão central da ordem.

Por definição, as relações internacionais são, paradoxalmente, ordenadas pelo princípio da anarquia. Muito longe de ser entendida como caos ou completa desordem, sempre é bom lembrar que a anarquia é entendida enquanto a inexistência de uma autoridade soberana em âmbito global, a qual tenha que se submeter todas as nações. A ONU não detém esse poder. Mas como criar ordem a partir da anarquia e a manter?

Hedley Bull, um dos maiores expoentes da Escola Inglesa, trar-nos-ia uma resposta precisa em “Sociedade Anárquica”, discorrendo acerca do funcionamento incompleto das principais instituições – não necessariamente organizações – internacionais, como o equilíbrio de poder, o direito internacional, a guerra, as regras e normas de conduta, entre outras. Outrossim, considera-se que inúmeras figuras políticas de proa assumiram a responsabilidade, consciente ou inconscientemente, de trabalhar em prol da construção da ordem mundial. Por certo, o caso de reordenamento mais famoso, é instalação de uma ordem bipolar no momento subsquente à Segunda Guerra Mundial. Outro interessante seria a criação da Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), cujos esforços foram capitaneados pelo bloco de países terceiromundistas, deslocando a primazia pela paz e segurança para o desenvolvimento.

Mas agora é diferente. Ahmadinejad vem com uma idéia bastante revolucionária. A vocação para se construir uma nova ordem soa bastante poderosa. No geral, a construção de uma nova ordem parte da iniciativa de grandes potências – principalmente aquelas vitoriosas após grandes guerras – ou de países que assumem uma responsabilidade comum em tal empreitada. Não há registros de que uma iniciativa bilateral entre uma potência em ascensão e um país cheio de desconfianças tenha logrado êxito em tal tarefa. No entanto, não se pode deixar de relevar a manobra política da presidente iraniano, ao evocar ordem e justiça simultaneamente. Ou se cria uma ordem em que todos tenham direito à tecnologia nuclear, o que inclui a possibilidade de armas nucleares, ou se cria uma ordem em que se elimine por completo as armas nucleares, reduzindo a importância da tecnologia nuclear. Talvez seja justo, mas seria ordenável?

Crucificar o discurso do presidente iraniano sem, no mínimo, uma análise crítica se apresenta como um maniqueísmo obsceno. A ordem é uma obviedade ululante nas relações internacionais! Construí-la e mantê-la é uma tarefa a qual o sistema de Estados sempre despendeu enormes esforços. É bem verdade que a evocação de Ahmadinejad possa ser um subterfúgio para escamotear a controversa questão nuclear do país; de culpado pela desordem, o Irã intenta ser o protagonista da ordem. No entanto, ressalta-se há muito um país de pequena expressão exortava a necessidade de ordenar o mundo.

De fato, como cantou Caetano Veloso, “alguma coisa está fora de ordem, fora da nova ordem mundial”, essa coisa é um país e esse país tem nome: Irã! O Irã tem sido excluído e foi se excluindo do mundo. Regressar a ele deve se dar de maneira concomitante à reconstrução de sua ordem. Certamente o país não dispõe de nenhuma condição para assumir a dianteira desse processo, no entanto, recuperou uma palavra inspiradora nesta ordeira terra de silêncios.

(Saibam mais sobre o programa nuclear iraniano aqui e sobre a visita de Amorim ao Irã aqui e aqui.)


Categorias: Brasil, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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