Uma festa do barulho

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O rojão de São João vem mais cedo na Coréia do Norte. Semana que vem eles comemorarão o centenário do nascimento de Kim Il-sung, o pai do falecido Jong-Il e que governou o país de 1948 a 1994. Para isso, nada melhor que fogos de artifício, incluindo um foguete levando um satélite de observação a ser lançado muito provavelmente na data do aniversário. O Japão e os EUA querem participar da festa e trazem os seus próprios mísseis, esperando para derrubar o brinquedo coreano caso eles inventem de mudar a rota do espaço para o chão – especialmente se for solo japonês ou sul-coreano. 

É um caso muito curioso, e até meio complicado de avaliar. Por um lado, desde que Kim Jong-um ascendeu ao poder, parece que a Coréia do Norte tem agido de modo a evitar problemas e meio que aliviar a pressão sobre os vizinhos, inclusive com a promessa de encerrar seu programa nuclear (em troca de comida!). Além disso, por acordo internacional todos os países têm direito a um programa espacial pacífico, e ao que parece, segundo especialistas, é esse o caso. 

Por outro lado, se há duas coisas que andam de mãos dadas são foguetes e mísseis. Basta lembrar que um dos homens que tornou a ida à Lua possível, Wernher von Braun, antes de ser trazido pro lado de cá do Atlântico, fez também os mísseis V-2 que os nazistas lançavam sobre a Inglaterra (antes disso, o máximo que os EUA tinham em matéria de foguete eram os que Robert Goddard lançava no quintal de sua casa). Não adianta reclamar, é a mesmíssima tecnologia, e os EUA e Japão afirmam de pé junto que esse lançamento é um teste balístico disfarçado, o que violaria resoluções do Conselho de Segurança e a promessa de suspender o programa nuclear. Por fim, é complicado medir as intenções de um país com um nacionalismo inflamado (ainda mais por conta da data), que tem armas nucleares e um exército regular menor apenas que os da China, EUA e Índia. O menor erro de cálculo pode causar uma queda acidental (ou não…) e causar uma catástrofe diplomática naquela região. 

 Esse lançamento é uma óbvia provocação, mas até que ponto a paranóia do “teste disfarçado” tem validade? Após tantos avanços (e parecer que o impasse do programa nuclear tem solução, e que a própria Coréia do Norte dá sinais disso), eles vão mesmo dar esse passo pra trás? Duvido. A mensagem de Pyongyang parece ser a de que “temos a tecnologia, então não pisem na bola”. Mas, quando falamos do regime mais fechado do mundo, tudo é possível, então vamos ver o resultado da festa do próximo fim de semana…


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