Uma eleição representativa

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Postagem rápida sobre a Líbia. O país saiu um pouco do noticiário com a morte de Kadafi e a matança na Síria, mas na semana passada tivemos lá mais uma vez um importante desdobramento da “primavera árabe” (se bem que esse termo já caiu em desuso, por que como temíamos não deu em nada de prático na maioria dos países…). 

São eleições para um congresso geral, que vai coordenar o governo (lembrem que o conselho atual é temporário), definir primeiro-ministro e elaborar uma constituição. Lindo, maravilhoso, mas aconteceu exatamente como se previa antes da queda de Kadafi: as rivalidades tribais e falta de coordenação fazem com que o resultado seja uma roleta russa. Pra ter uma ideia, havia 142 partidos registrados para a eleição, e era literalmente impossível saber quem poderia levar. O resultado ainda não saiu, mas já tem sua cota de problemas, como ataques de milícias, mortes, o provável esquema de manipulação de votos, e a insatisfação de algumas regiões com a questão de representação. Isso por que o povo da região de Benghazi acha que merece mais vagas por ter levado a revolução nas costas, enquanto Trípoli vai ter mais vagas por ser mais populosa. 

Talvez o mais interessante disso tudo seja ver como esses povos que estavam sob ditaduras e governos longevos geralmente se animam muito com a perspectiva de uma democracia representativa. O comparecimento parece ter sido de mais de 80% dos líbios em condição de votar, um número expressivo demais pra uma eleição que não era compulsória e para quem não votava há mais de 60 anos. Foi assim no Iraque, no Afeganistão, e na Tunísia. E, provavelmente, em qualquer país que passe por um processo assim. Mas por que existe essa “mística” da democracia? A ideia de um governo igualitário, ou que finalmente represente o interesse da maioria, é uma coisa fabricada pelas elites e lideranças regionais, ou realmente surge naturalmente? Algo como a simples oposição ao processo anterior? Talvez seja isso – de algum lugar, a população tem essa percepção de que se não participarem agora, podem e vão ficar para trás quando o governo for formado de fato. Seja o que for, cientistas políticos do futuro vão ter um caso de estudo muito interessante.


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