Uma deportação controversa

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Um dos temas internacionais que mais desafia o senso comum é a imigração. De pronto, infere-se que são os mais pobres que escolhem este caminho com maior frequência, em especial seguindo a rota sul-norte. Na realidade, segundo dados das Nações Unidas, somos surpreendidos pela prevalência de migrações dentro dos territórios nacionais, assim como os movimentos inter-regionais, e não dos países menos para os mais desenvolvidos.  

Mais surpreendidos ainda somos quando, no exemplo do caso de mexicanos migrando para os Estados Unidos, percebemos um aumento diretamente proporcional da imigração em relação à renda. A pobreza, neste sentido, apresenta outra face perversa: a imobilização. A baixa qualificação e renda são fatores impeditivos para a mobilidade. 

Mesmo no caso de conflitos, principais fontes de mobilidade compulsória, observa-se que o fluxo de refugiados de áreas como Síria, Afeganistão, Iraque e Somália tende a se concentram em países vizinhos ou na própria região. Em sentido contrário, a população de maior nível educacional encontra melhores oportunidades. Outro elemento importante do debate é uma Europa, cujo processo de transição demográfica foi concluído e que deve precisar, no futuro não distante, de um fluxo imigratório para sustentar seu crescimento econômico. 

Nesta semana, um caso muito ilustrativo ocorreu na França. Uma jovem de origem cigana, Leonarda Dibrani, foi surpreendida por uma ligação durante uma excursão escolar. Tratava-se de um oficial da polícia francesa. Sua família, naquela manhã, ia ser deportada para o Kosovo e faltava encontrar a filha. Ao encontra-la no ônibus da excursão, a polícia deteve a menina na frente dos colegas e a deportou em sequência.

 

De volta ao Kosovo, a jovem deu uma entrevista para uma rádio francesa expressando seu desejo de retornar à França com sua família. Na nova pátria, sua família não tem casa e a menina não pode frequentar a escola por não falar o idioma local. A deportação despertou uma onda de protestos contra o procedimento virulento para retirar a família de solo francês.  

Neste sábado, o presidente francês, François Hollande, ofereceu à menina o retorno ao país, sob a condição de retornar sozinha. Este processo coincide com uma promessa de maior firmeza do Ministério do Interior, o ministro Manuel Valls declarou há duas semanas que os ciganos instalados na França estavam destinados a retornar para a Bulgária.   

A população cigana é alvo frequente, não só na França. O aspecto nebuloso no caso da família cigana é que se cumpria o aspecto fundamental, qual seja, a incorporação ao país receptor. Leonarda frequentava a escola e falava fluentemente francês. O não aceitar aspectos culturais e educacionais franceses talvez seja a principal crítica contra os imigrantes. No caso em questão, fez-se valer um regulamento interno em prejuízo a direitos fundamentais.  

Quantas outras situações como esta não devem ocorrer mundo afora? Para muitos governos continua mais fácil alimentar o senso comum sobre imigrantes, fazer doações para refugiados (mas estabelecer cotas para recebe-los) e buscar meios legais de deportar populações indesejadas. Sorte que muitos não concordam, no caso de Leonarda muitos estudantes, que desejam vê-la trocar o banco da praça no Kosovo pelo banco escolar na França.  


Categorias: Europa


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