Uma década nada econômica

Por

Voltamos à análise dos 10 anos dos ataques terroristas aos EUA. E dessa vez, com um viés bastante atual, o econômico. Pode não parecer à primeira vista, mas boa parte da crise econômica mundial que estamos enfrentando hoje se deve àquele 11 de setembro e suas conseqüências.

Claro que a estrela dessa tragédia são os EUA. Podemos pensar, em um primeiro momento, em pelo menos duas conseqüências para a economia norte-americana, e que depois infectaram a mundial. A primeira delas, como todos sabem, logo após os atentados, foi a exigência de uma pronta-resposta contra o regime que acolhia os terroristas responsáveis pela hecatombe. A outra foi, imediatamente, uma grave crise de confiança: queda de bolsas, paralisação do mercado financeiro por algum tempo (afinal, teve seu “coração” derrubado) e o caos aéreo que se seguiu pela paranóia de segurança. A cada um desses desafios os EUA responderam à altura: primeiro invadiram o Afeganistão (e posteriormente o Iraque, na onda da “Guerra ao Terror”), e o governo fez de tudo para incentivar o consumo e manter o ritmo de produção.

Fazer guerra é um negócio lucrativo – e também muito caro. As campanhas empreendidas pelos EUA movimentaram bilhões em contratos com empresas de segurança, mercenários, indústria bélica e de “reconstrução” civil, ao mesmo passo em que endividaram consideravelmente o tesouro norte-americano. Nada que eles não conseguissem manejar, apesar de problemas graves como o Katrina e a reconstrução subseqüente. O problema veio do outro lado: a manutenção de taxas de juro irrisórias e do consumo a todo vapor geraram uma bolha que afetou todo o sistema financeiro dos EUA (e logo, do mundo inteiro, já que esse aquecimento afetava também os parceiros comerciais dos EUA… ou seja, todo mundo!), e acabou estourando quando houve o descontrole dos créditos podres no sistema imobiliário. O excesso de ambição interno e brutalidade externa causaram uma distorção impossível de ser impedida e que logo desabou levando a economia mundial junto.

Pois bem, vejam o quadro. Economias do mundo todo começaram a cair em 2008, endividamentos absurdos que estavam mascarados pelos anos de bonança começaram a fazer a unidade da União Europeia ruir, as invasões (especialmente do Iraque) causaram incertezas no mercado e desagradaram países árabes, fazendo os preços do barril de petróleo estourarem (afetando preços pelo mundo todo), e o capitalismo enfrentou sua pior crise desde 1929. No fim, os bancos nacionais conseguiram salvar economias cambaleantes, a China e seu mercado gigante carregaram o mundo nas costas, alguns países tiveram muita sorte (ou competência) para evitar os efeitos mais graves da crise (bem ou mal, é o caso do Brasil), e o pior passou. Passou? Não parece que tempos melhores estejam por vir, e os bancos podem não ter mais dinheiro para salvar a pátria (literalmente). Essa discussão sobre a dívida dos EUA, por exemplo, que angustia Obama num cabo-de-guerra com o Congresso e os partidos, é a grande herança maldita dos gastos de seu antecessor; a dívida dos países na zona do Euro põe em risco a até agora “mais bem sucedida” experiência de integração regional; e mesmo a China parece estar chegando ao seu limite, dadas as contradições internas e a pressão cambial.

Algumas coisas boas aconteceram nessa área, como o início das negociações da Rodada Doha (já comentada aqui), que ninguém imaginava que iria sequer começar, ou o surgimento de outras forças econômicas com maior relevância na esfera internacional, como a China ou mesmo o Brasil. Ou seria apenas a decadência das economias mais tradicionais? Enfim, não chega a ser surpreendente, já que muitos países subdesenvolvidos eram anunciados como potenciais protagonistas da economia mundial do futuro, mas o modo como isso aconteceu foi de uma escala muito ampla e rápida. A China, por exemplo, galgou degraus e hoje é a segunda economia do mundo, com data prevista pra ser a primeira. E agora, cá entre nós, quem imaginaria, em 2001, quando o Brasil ainda devia mundos e fundos ao FMI, que dez anos depois seríamos credores (mal e mal, mas credores) do infame órgão?

Pois é, as conseqüências foram muitas, para bem e para mal. Hoje o mundo todo sofre com as conseqüências e o desafio imposto por essa crise toda, e não seria exagero pensar que daqui a dez anos ainda estaremos enfrentando desenvolvimentos dessa crise. Que, em de certa forma, teve suas raízes naquela manhã de 2001…


Categorias: Américas, Brasil, Economia, Estados Unidos, Europa, Post Especial


0 comments