Uma breve reflexão sobre a violência

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Aproveitando o post de ontem do Álvaro, bem como o recém-divulgado Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2011, cujo subtítulo é “Conflito, segurança e desenvolvimento”, comentemos este fenômeno da escalada da violência em nível mundial, que excede propriamente os “tiros em Columbine”, Realengo ou Alphen aan den Rijn. Notadamente, o que chama a atenção de tal fenômeno é a diminuição de guerras entre países ou guerras civis em detrimento da elevação da criminalidade – com as gangues e o narcotráfico –, dos distúrbios econômicos e do terrorismo. O perigo pode estar mais próximo.

Dessa forma, segundo o relatório, 25% da população mundial estaria vivendo sob conflito. Mesmo sem empregar uma definição muito clara de conflito, esse dado é bastante chamativo: um em cada quatro habitantes do planeta está inseguro, muitas vezes, até sem saber por que. Se todos os caminhos um dia levavam a Roma, hoje pode levar ao cemitério mais próximo. Vive-se do medo, tão real quanto imaginário, tão imaginário quanto real…

Outro ponto fundamental é que nenhum dos países que se encontra em situação de conflito, especialmente na África, alcançou sequer um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Ao todo, são oito metas “ambiciosas” da ONU para corrigir os principais problemas do mundo, que vão da eliminação da fome e pobreza até o estabelecimento de uma parceria mundial pelo desenvolvimento. Ademais, ressalta-se que há uma correlação entre conflito e desenvolvimento econômico: estima-se que a recuperação econômica pós-conflito leva em média 30 anos. Esse um quarto da população mundial está condenada a pelo menos 30 anos de atraso; 2015 foi o ano estipulado para o cumprimento dos ODM.

A solução que o relatório apresenta é que “o fortalecimento da governança e instituições legítimas para fornecer segurança cidadã, justiça e empregos é crucial para quebrar os ciclos de violência.” Parece óbvia essa solução, não fosse a distância que há entre a sua proposição e a sua real implementação. Distância esta resumida em duas perguntas: como fazer? E quem faz?

Desnecessário dizer que a incerteza é muito maior hoje do que na Guerra Fria, mesmo que ameaça da destruição do mundo se fizesse valer pelo terror das armas nucleares. Não sabemos como nossas vidas podem ser abreviadas. De repente, numa escola, um imbecil resolve abrir fogo, com uma arma ilegal, de um comércio ilegal, que gera riqueza ilegal, produz mortes ilegais. Tornarmo-nos mais próximos, em decorrência da globalização, também nos tornou mais estranhos. Os Estados, edificados sobre o alicerce da segurança, vêem cada vez mais diminuída a sua capacidade de oferecer proteção. Sem proteger os seus cidadãos, acabam também incapazes de lhes oferecer bem-estar.

É difícil viver em conflito, sem conhecer, muitas vezes, o inimigo, a ameaça, o protetor e a solução.


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