Uma breve aula de biologia no Oriente Médio

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[Gostaria de agradecer a minha amiga Natalia Santos, granduanda em Farmácia pela UNIP-Rio Preto, pelo apoio prestado a este post. Sem as suas considerações e esclarecimentos, não teria sido possível eu fazê-lo. Muito obrigado!]

À primeira vista, pode parecer estranho, mas este post é sobre relações internacionais. Ou sobre relações tensas, conflituosas, desconfiadas, terroristas e, até mesmo, entediantes. Pois é, pessoal, estamos falando sobre o Oriente Médio e os acontecimentos mais recentes nessa incandescente parte do globo. Mas o que a biologia tem a ver com isso? Logo explico, os primeiros estudos dos antropólogos sobre as causas da guerra levaram em consideração a natureza humana e suas predisposições biológicas para fazê-la, como a “sede de agressão”, localizada no sistema límbico, na região cerebral. Estariam os homens lá lutando até hoje por causa desse impulso?


Prossigamos com esta aula de biologia no Oriente Médio. Que tal falarmos um pouco sobre o seu DNA (ácido desoxirribonucléico), que possui peculiaridades em relação ao DNA humano. Nessa região, as bases nitrogenadas metamorfoseiam os seus significados, não se restringindo a palavras fixas como: T timina, A adenina, C citosina ou G guanina. Nem mesmo as suas ligações peptídicas (A-T e C-G) são mantidas. Ora, encontramos uma nova razão para a incandescência do Oriente Médio. Bem, deixemos a teoria um pouco de lado em prol da observação empírica.

E o Afeganistão? O “Santo Graal” da atual política externa dos Estados Unidos. Uma mística busca sem fim pela estabilidade e redemocratização do país, de modo a combater qualquer reduto terrorista. No final de setembro, o general responsável pelas tropas norte-americanas em solo afegão, Stanley A. McChrystal, divulgou um relatório intitulado “Relatório Inicial de Comando” que, diga-se de passagem, de inicial nada tem, afinal já são oito anos no Afeganistão. No documento, o general considerou necessário o envio de mais soldados – um contingente de 40 mil homens –, dado o perigo de uma guerra longínqua e prolongada. Notem, pessoal, a primeira ligação: A-T = Afeganistão – Terror; e outra não convencional: G-T = Guerra – Terrorismo. Mas seria interessante estender o tempo dessa guerra? (Ouçam a entrevista do Prof. Dr. Hector Luis Saint-Pierre).

Por enquanto, a proposta de McChrystal está em discussão. Londres já fez a sua parte, mas Obama não parece muito animado para fazer a sua. O líder norte-americano não pretende executá-la enquanto não estiver convencido de que Cabul seja um parceiro confiável dos Estados Unidos. Até C se liga com C: Confiança – Cooperação, uma combinação já conhecida. Recentemente, a eleição de Hamid Karzai, atual presidente do Afeganistão foi anulada e será realizado um novo segundo turno. Motivo: fraude.

Aliás, para o presidente do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos, Richard Haas, o Afeganistão (confiram aqui esta entrevista) já deixou de ser uma “guerra de necessidade”, como no imediato posterior ao 11/09, em que se urgiu a prevenção do terrorismo, para se tornar uma “guerra de escolha”, a escolha de Obama de persistir. Para Haas, é preciso um limite para a empreitada norte-americana no país. O próprio presidente norte-americano enfrenta fortes pressões contrárias a essa guerra. Mais importante até do que o envio de mais soldados ao Afeganistão é o fortalecimento da cooperação com o Paquistão, que trava uma constante batalha contra os insurgentes da Al-Qaeda e Taleban – por sinal, ambos os grupos se fortaleceram. É C com G: Conflito – Guerrilha.

E o Irã? Em tempos recentes, de ameaça se converteu no ameaçado. Os recentes atentados no país deixaram 42 mortos, dentre os quais, seis líderes da Guarda Revolucionária, a força militar mais poderosa do país. O grupo radical sunita Jundillah assumiu a autoria dos atos, mas o governo iraniano insiste em acusar os Estados Unidos, o Paquistão e o Reino Unido de envolvimento nos mesmos. E, ainda pior, o evento pode comprometer as negociações para o desarmamento do Irã. Que tal um A-C? Atentado – Crise, no caso, crise diplomática.

E essa agora entre Turquia e Israel? A Turquia vem se afastando do seu histórico relacionamento com Israel e se aproximando cada vez mais da Síria, inimiga declarada do governo israelense. Também, certamente, não é para menos após as “mancadas” de Shimon Peres e Benjamin Netanyahu, sobretudo, com relação ao desrespeito à mediação turca pela paz na Faixa de Gaza. Um T-C? Traição – Começo, ou seja, busca por novas relações.

Enfim, aqui se encerra uma breve aula de biologia no Oriente Médio, cujas ligações peptídicas desafiam à própria definição dos biólogos e geneticistas. Ter-se-ia criado um organismo completamente disforme? Talvez nem tanto, mas explicar o funcionamento do mesmo não é tarefa fácil para nenhuma área do conhecimento ou religiosa. Segue a vida belicosa, instável e até intermitente da região.


Categorias: Ásia e Oceania, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Olá, Bianca. Muito obrigado pelas suas considerações! Há inúmeros fatores que contribuem para a inconstante e instável situação no Oriente Médio, assim como você os elencou, mas o que sempre chama a atenção de toda comunidade internacional é a persistência da guerra nessa região. Parece-me que a "genética" ou não a favoreceu tanto, ou ainda não pode ser "codificada".O Oriente Médio pode não ser mesmo um organismo disforme, mas que é bastante peculiar... Isso ele é.Mendel hoje teria que lidar com variedades de plantas mais complexas, não?! heheheAté mais!

Bianca Fadel
Bianca Fadel

Muito legal a analogia, Giovanni ! De verdade ! Gostei muito do post e da temática exposta... Talvez o "organismo" criado nas Relações Internacionais da região não possa ser considerado "completamente disforme", mas que as conformidades são complicadas de se alcançar na região, ah, disso não se duvida... Desde fatores identitários até características bélicas complexificam o debate e tornam a "genética" apresentada dependente de fatores delicados e para o entendimento dos quais devem ser apresentadas análises (no mínimo) cuidadosas no contexto das RI... PS: Mendel certamente se admiraria com a complexidade destes fatos, né ?! hehe... ;)