Uma boa leitura, NSA!

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Já faz bastante tempo que a existência de mecanismos de espionagem de alcance mundial passaram a ser algo além da ficção científica. No entanto, a literatura, o cinema, os aficionados por teorias da conspiração e as revistas sensacionalistas lançaram para fora do círculo de discussões sérias o tema, mantendo ele como uma possibilidade mais próxima de deduções de lunáticos do que de qualquer fato próximo da verdade. 

Eis que o caso Snowden, o mais novo das trapalhadas do serviço secreto americano, que abre para pessoas comuns uma imensa quantidade de informações sigilosas explosivas, provou que essas não eram apenas teorias sem fundamento. As notícias de que a NSA (Agência de Segurança Nacional) havia tido acesso à conversas na internet e ligações de milhares de americanos chegaram à imprensa como bombas.

O governo americano se defendeu. Afirmou que as suas atividades seguiam as necessidades da luta contra o terrorismo. Puseram a legitimidade de suas ações sobre o Patriot Act, que mais parece uma carta branca à qualquer ação do Estado. A resposta do governo apenas esfriou por um instante a situação. Como no caso WikiLeaks, aquela era a ponta do iceberg de escândalos que seriam descobertos depois, nos documentos vazados por Snowden. 

E não demorou muito. Agora se descobre que os EUA não usaram seu aparato tecnológico e contratos com empresas privadas apenas para espionar a sua população. Outros países também tiveram seus dados violados, ligações telefônicas grampeadas etc. Desde governos, a empresas e até pessoas comuns. Americanos em circulação e cidadãos de todas as nacionalidades. Espionagem que coloca em risco segredos de Estado, conhecimento industrial e tecnológico. O direito a privacidade também, talvez o menor dos pecados cometidos pela agência. 

Entre os países mais espionados o destaque foram Brasil, China, Rússia, Irã e Paquistão, os favoritos da NSA por motivos ainda não explicados. São dados roubados pelos cabos de internet no mar e também com a utilização de empresas regionais com contratos com a agência. Tudo quanto os EUA pudessem descobrir, principalmente dos países que o ameaçam ou são interessantes pela potência econômica ou militar que representam.

No caso brasileiro, o que era um escândalo acompanhado de perto se transformou em crise diplomática. O governo, após uma reunião de emergência entre a presidente e vários ministros, afirmou que levaria o caso até a ONU, além de cobrar velocidade ao Congresso na votação de regras jurídicas que protejam mais a internet no país. Explicações do governo americano e das empresas envolvidas no ocorrido também devem ser cobradas. 

Ainda após a reunião, o ministro das Relações Exteriores foi a uma conferência de imprensa, em que defendeu os pontos do governo. Mas o mais interessante da fala de Patriota foi uma constatação pessimista: afirmou que talvez “medidas nacionais de proteção aos usuários brasileiros não sejam eficazes, já que quem controla a internet é uma empresa americana”.

Exatamente. A internet tem dono, mesmo que isso fuja dos nossos pensamentos a maioria das vezes. Preferimos pensar nela como um grande paraíso da liberdade, controlada por nada além da vontade dos usuários. Esquecemos que as redes sociais, os e-mails e os provedores são controlados por empresas gigantes, também com interesses e grandes poderes. E agora sabemos que com grandes contratos com o governo americano. AT&T, Google, Facebook e outras centenas de gigantes trabalhando a serviço de um sistema sofisticado de inteligência, que abriga mais de 52 mil funcionários contratados somente nos EUA. Já imaginaram a dimensão disso?

E esse tipo de espionagem, mesmo que alarmante, já é bastante comum. Apenas alguns dias antes de toda a confusão proporcionada por Snowden, jornais franceses já denunciavam a utilização de ferramentas parecidas pelo seu governo. Faltava a prova definitiva, a documentação de um caso de espionagem gigantesco  que pudesse mexer com o interesse de uma sociedade anestesiada, lotada de escândalos e teorias conspiratórias suficientes para que ninguém dê atenção mais a nada.

Todo o caso da NSA talvez também nos faça repensar o papel da internet na política e na reafirmação da democracia., principalmente o aumento de sua influencia como apenas um fator positivo, como defendem cada vez mais especialistas. Mas o assunto sobre as reais capacidades das redes sociais em aumentar a participação política da população é bastantes extenso. Terá que ser discutido em outro post, relacionando redes sociais, internet e a política internacional.

Continuemos a brincadeira do título do post. Será que a NSA leria minhas publicações no blog? Não acredito. Como sabemos, não pela capacidade da agência em conhecer e invadir todas as conversas, mas pela falta de interesse no que escrevo. Tanto aqui como nas publicações ou nas conversas privadas pelas redes sociais. E entre os leitores, será que alguém terá algo especial para ser lido pela NSA? Será que já foram espionados ou pelo menos tem informações pessoais na base de dados da agência? É nesse momento que muitos agradecem aos céus pelos seus pares ciumentos não trabalharem no órgão. Mas será que não trabalham mesmo? Ou pelo menos em uma das empresas com contratos com o governo americano? Melhor brincar com toda a descoberta de quão controlados somos e aproveitas o que restou de nossa liberdade.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Polêmica


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  1. […] e da Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês) nos textos “A visita indesejada” e “Uma boa leitura, NSA!”, respectivamente. O primeiro foi acusado e penalizado por ter vazado informações secretas do […]