Um sonho futuro

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Em um ano que não vai deixar saudades para Barack Obama, pelo menos uma de suas decisões vai ter um impacto duradouro na sociedade norte-americana, e possivelmente benéfico. Nesta semana, o presidente recorre a decreto, um recurso não muito bem-visto nos meios democráticos, mas que funciona quando necessário, para aprovar mudanças nas leis de imigração do país e passar por cima da oposição cerrada no Congresso, legalizando milhões de imigrantes em situação irregular.

Vamos por partes. A reforma da imigração sempre foi uma das principais bandeiras de Obama (lembrem-se que grande parte dos eleitores que o colocaram na Casa Branca são os de origem latina, imigrantes ou descendentes), com a finalidade de resolver o problema dos quase 12 milhões de ilegais no país. Porém, o que se viu foi uma onda de deportação recorde, igualando em dois anos a quantidade de deportados em oito anos de Bush filho. A razão disso é o velho problema da política de oferecer agrados a opositores para tentar colher os frutos no futuro. Visando ao apoio republicano, Obama teve de endurecer as políticas as aguentar as críticas em cima disso, na esperança de que quando a nova legislação de reforme fosse votada, tivesse a simpatia dos opositores. Não deu muito certo, seja por que os republicanos não engoliram esse macete, seja pelo fato de que conseguiram conquistar a maioria nas duas casas e agora estão pouco se importando com quaisquer políticas de Obama – ou, pior, se dedicando a sabotá-las.

Sem alternativa, o presidente abraçou uma alternativa mais modesta, e por meio de decreto deve beneficiar quase 5 milhões de ilegais com o abrandamento de condições para a deportação. Permanece o rigor com os que chegaram recentemente ou cometeram crimes, mas aqueles que estão há mais de 10 anos ou tenham filhos cidadãos norte-americanos podem acabar permanecendo. O decreto não chega ao ponto da concessão de cidadania (que era um dos pontos principais da nova lei), mas é um passo importante para manter funcionando uma das principais engrenagens da economia norte-americana ao trazer uma enorme parcela de população economicamente ativa para o setor formal.

Basta lembrar que, em comparação a outras economias desenvolvidas maduras, os EUA são a única em que não há déficit populacional. A Europa em crise sofre com a redução da força de trabalho, mas isso não acontece nos EUA por ser um polo de atração tão forte de imigrantes, que substituem os aposentados em ritmo estável. Pensando mais adiante, os impactos em longo prazo são ainda maiores, pois a contribuição dessa camada da população para planos de previdência social e programas assistenciais é imprescindível para que as contas fechem. Conseguir inserir legalmente uma parcela na casa dos milhões de cidadãos, que já estão na economia de algum modo mas sem participar do sistema, é uma medida impopular com setores mais conservadores (apesar de a maior crítica dos republicanos não ser às medidas, mas pelo fato do presidente ter passado por cima do Congresso) mas ao mesmo tempo assenta bases para uma fundação sólida do sistema previdenciário nas próximas décadas, e a depender dos rumos do mandato, pode acabar sendo a maior contribuição de Obama para o país em seus dois mandatos.


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