Um processo imprevisível

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A ONU faz muitas coisas boas, mas geralmente é taxada de incompetente quando não consegue agir de maneira mais incisiva em certas questões (alô, Conselho de Segurança). O problema fica pior quando, num dos casos mais importantes de sua história recente, a organização sofre um contragolpe por causa de imprevistos, e que diz muito sobre sua atuação. 

Mas o que está acontecendo? Senhoras e senhores, a ONU está sendo processada! E não é por nenhum ditador que se sentiu lesado ou algo do tipo, mas por cidadãos do Haiti, o país mais pobre do mundo. O grande problema é que existem indícios de que a epidemia de cólera que assola o país (e já matou mais de 8 mil pessoas) teria sido trazida por soldados nepaleses, integrantes da missão. Apesar de ser um país com mais problemas que se possa imaginar, a cólera não era um deles – estava erradicada na ilha há mais de 100 anos. Porém, com a devastação da guerra e, principalmente, do terremoto de 2010, a falta de condições mínimas de saúde fez com que a doença de espalhasse. 

Temos vários lados para analisar essa questão. Primeiro, a legitimidade do processo. Afinal, existe um dano, mas é claro que a ONU não teve a intenção. Trata-se de uma epidemia “culposa”? E como a ONU vai ser obrigada a pagar as indenizações bilionárias, já que o tribunal é norte-americano? É possível processar uma organização internacional? 

Mas talvez o mais importante seja o impacto nas próprias missões da ONU. O efeito imediato foi a redução do efetivo da missão no Haiti. Mas há outros problemas, como a composição do efetivo. Geralmente, missões de paz têm tropas enviadas por países que querem algum prestígio (alô Brasil) ou que apenas querem ter algum tipo de treinamento ou uso prático para suas tropas (como o Japão). 

No caso, a missão do Haiti tem vários países envolvidos, a maioria sul-americanos, e o envio de soldados nepaleses parece se encaixar nesse fator político. Vindos de um país com cólera endêmica, para um país arrasado, é a receita para o desastre. A ONU já tem uma comissão estudando o caso (e diz que não vai pagar indenização alguma), mas comprovando-se ou não a culpa da instituição para a volta da epidemia, a mancha na imagem fica ainda mais negativa. Somado ao estigma da falta de ação, está agora o de que a ONU pode efetivamente piorar uma situação que já era ruim. Nessa década onde missões foram contestadas, surgem denúncias de abusos por tropas de paz e a própria eficácia do modelo está em xeque, o caso da cólera do Haiti se põe como mais um desafio à modernização e adaptação da ONU aos novos tempos.


Categorias: Américas, Assistência Humanitária, Defesa, Direitos Humanos, Organizações Internacionais


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