Um por todos, e todos por um

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Quando Alexandre Dumas escreveu “Os Três Mosqueteiros”, nem imaginava que um dia o lema dos seus heróis poderia ser usado para caracterizar uma barganha de vidas humanas. E muitas vidas. Já ouviram falar em Gilad Shalit? Esse é o nome de um jovem soldado israelense seqüestrado pelo Hamas e cuja libertação foi definida após negociações meio ambíguas com Israel, que vai libertar cerca de 1000 prisioneiros palestinos acusados de crimes relacionados ao terrorismo, incluindo alguns que estavam em prisão perpétua. Todos ficam felizes e a vida continua, certo?

Bom, esse expediente de troca de prisioneiros não é coisa nova – teria começado mesmo na Guerra de Secessão dos EUA. Antigamente, prisioneiros eram simplesmente mortos ou vendidos como escravos. Claro que isso não pegaria bem na pátria da liberdade, e como as prisões chegaram a um ponto de superlotação, os comandantes da União e confederados chegaram à conclusão que o ideal seria simplesmente trocar os prisioneiros de uma maneira justa. Assim, quem fosse capturado podia circular livremente (sob a condição de ser morto sem piedade caso fosse pego com armas na mão) até que os exércitos encontrassem um lugar neutro pra fazerem a troca de figurinhas. E com isso começou uma tradição que hoje é regulamentada pela Convenção de Genebra, que diz que soldados doentes ou incapacitados para o esforço de guerra e que estejam em território inimigo devem ser repatriados.

O problema é que, enquanto os dois lados do conflito são Estados, dá pra seguir essa regra sem muito problema (e mesmo assim nem sempre é garantia de proteção aos prisioneiros, basta ver a II Guerra Mundial…), mas quando o conflito tem um ator não-estatal, especialmente conflitos civis, o que antes era um recurso humanitário passa a ser um elemento de barganha. Ou seja, se torna não uma decorrência natural do combate, mas um meio para atingir o fim específico de libertar prisioneiros, muitas vezes condenados criminalmente. Basta pensar no seqüestro de diplomatas para trocar por prisioneiros políticos na época da ditadura, no caso das FARC, que mantém gente presa há mais de 10 anos no meio do mato para trocar por terroristas presos, ou dos funcionários de empresas de construção capturados no Iraque.

Esse é o problema desse tipo de troca, pois não são prisioneiros de guerra, apenas vítimas de um crime bastante específico. O próprio Gilat não é um prisioneiro de guerra – foi seqüestrado deliberadamente por um túnel na fronteira. E isso traz mais drama pra situação: pode parecer que todos ficam satisfeitos com o resultado, mas no fundo isso só traz problemas em longo prazo. Essa troca do Gilat é particularmente ruim por que abre um precedente: o pessoal do Hamas já ameaça seqüestrar mais soldados israelenses até que consiga a libertação de cerca de 6000 palestinos presos em Israel. Ao mesmo tempo, os conservadores de Israel repreendem o acordo por considerarem “fraqueza”, além de considerarem que o país perde uma importante moeda de troca nas negociações com os palestinos. Familiares de vítimas de ataques condenam a libertação de “terroristas e assassinos” (inclusive entrando na justiça contra esse acordo). E até mesmo há discussão interna entre Hamas e Fatah – esse acordo teria sido uma manobra de Israel pra tirar a atenção da mídia da questão do reconhecimento do Estado palestino, o que é muito provável, dadas as condições “desvantajosas” que Netanyahu acatou.

Entre mortos e feridos, salva-se o pobre Gilat, que (espera-se) volta para sua família. Mas fica a apreensão de tantos outros, em Israel e pelo mundo, que possam vir a passar pelo mesmo com o sucesso da barganha feita com sua vida.


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