Um mundo mais seguro?

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O Instituto Internacional de Pesquisas de Paz de Estocolmo (SIPRI) publicou a edição 2010 de seu famoso relatório anual sobre gastos militares, e mais uma vez nos leva a refletir sobre as condições do mundo em que vivemos.


Alguns autores realistas em Relações Internacionais, como Kenneth Waltz, acreditam que o período de Guerra Fria era de grande “estabilidade”. Duas potências armadas até os dentes, e baixa possibilidade de guerra direta. Vivia-se à sombra da guerra, de um holocausto nuclear, mas ainda assim, “estávamos seguros”. Como o filósofo italiano, Norberto Bobbio, afirmou, a “consciência atômica” foi aos poucos atingindo as grandes potências, e o entendimento de que as armas nucleares não eram ferramentas de poder imperial, mas de extermínio se alastrou levando aos regimes de não-proliferação. Pois afinal, sem reino não há reinado.


Atualmente, a “estabilidade” e as “certezas” degeneraram-se em retóricas regadas pela semântica da pacificação, combate a inimigos sem face e desarmamento. Não se sabe se a não-proliferação é realmente visada ou se é uma forma de manter as estruturas de poder militar do sistema internacional; e se seu parceiro essencial, o desarmamento, caminha realmente a seu lado.


O relatório do SIPRI nos dá algumas ideias de em que vias a nova retórica do século XXI acompanha as práticas concretas dos Estados. O dado mais surpreendente (e contraditório) é que mesmo apesar da grave crise econômica de inicio em 2008, os gastos militares na maioria dos países continuaram a crescer. Nas Américas, os gastos militares cresceram 7,6% em relação a 2008 e 72% em relação a 2000; mesmo considerando a redução do PIB de muitos desses países. Na América do Sul, o Brasil foi o campeão de aumento em termos absolutos, de $3,8 bilhões, enquanto que em termos relativos o primeiro lugar pertence ao Uruguai com crescimento de 24%.


O documento afirma que países como o Brasil, a Índia e a China foram pouco afetados pela crise e seus pacotes de incentivo à economia foram eficazes no combate a seus efeitos. O crescimento dos gastos militares nesses países seria então condizente com suas ambições de maior reconhecimento e atuação no plano internacional.


Há algo bem interessante a ser pontuado e questionado nos resultados. Os EUA ainda mantém um elevado gasto, de $661 bilhões, no geral resultado das políticas da administração Bush. Todavia, pouco foi alterado no governo Obama e esses gastos continuam a crescer. A prospecção é de que em 2011 o orçamento militar do país será de aproximadamente $739 bilhões. As ocupações do Iraque e do Afeganistão e o combate ao narcoterrorrismo servem como explicações plausíveis para o fenômeno, porém não condizem com a retórica estadunidense de Obama.


Alguns movimentos como a celebração de um novo tratado de desarmamento com a Rússia pelos EUA, as alterações no Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e as tentativas de aumentar as capacidades de inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) denotam certa inflexão na retórica das potências mundiais e de países em todo o mundo.


O discurso não parece muito condizente com as práticas internas militares desses países (em especial dos EUA). Será mesmo que estamos caminhando para a concretização da promessa de Obama em Praga no ano passado, para “a paz e a segurança de um mundo sem armas nucleares”? Mesmo que não haja armas nucleares, há armas, e sempre haverá. Poderíamos até estar em um mundo parecido com o de outrora. Mas agora maquiado de novas retóricas, de um suposto “mundo mais seguro”…


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