Um mundo em lotação: onde estão os riscos?

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Continuamos nossa saga. Quais os riscos que o crescimento populacional acarreta? Nós já sabemos que vai faltar alimento, água, energia e outros recursos, que, consequentemente, colocarão em risco à sobrevivência de muitas pessoas. A questão é: quando suas vidas estiverem em risco, o que essas pessoas farão? Não importa se a natureza humana é boa ou má, azul ou vermelha, todo mundo faz o possível e o impossível para sobreviver: uns acordam às 4h da manhã, gastam 2h andando de trem, metrô e ônibus para chegar ao trabalho e retornam para casa depois das 22h; outros roubam, traficam e matam. Assim é a vida. Em algum canto, alguém precisa alimentar um filho faminto, em outro canto, alguém resolve ser o Eike Batista da periferia.

Duas coisas não são fatos exclusivos do século XXI: por alimentos, as pessoas migram e brigam. Desde o período Paleolítico (até cerca de 10.000 a.C.), antes de se tornar sedentária, a humanidade era nômade, caçadora e coletora de seus alimentos. Com a passagem do período Neolítico (10.000 a.C. – 3.000 a.C.) para a Idade dos Metais, assistiu-se ao surgimento das civilizações e, também, da guerra na história escrita. Acredita-se que, na planície aluvional dos rios Tigre e Eufrates, onde se localizava a Suméria, nasceram as raízes da belicosidade, em disputas por água, pastoreio e limites. Já dizia o velho Machado de Assis em “Quincas Borbas”, ao analisar por que duas tribos lutam por batatas, e uma delas vence: “não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra”.

Mas o que há de novo neste século? As pessoas continuam migrando. De acordo com os dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), atualmente, há 214 milhões de migrantes, 27,5 milhões de deslocados internos e 15,4 milhões de refugiados. Quando comparados com os indicadores de 2000, esses números subiram bastante. Alguns migram buscando novas condições de vida, outros são forçados a migrar. Faltam alimentos, água, empregos, sobram violência, pobreza, perseguições.

E os conflitos? Há um dado muito chamativo no Relatório de Desenvolvimento Humano do Banco Mundial de 2011: uma em cada quatro pessoas no mundo vive em situação de conflito ou violência. Não necessariamente porque há guerras interestatais, mas a existência de guerras civis e a presença de grupos armados, gangues, entre outros fatores, provocam essa situação. Além disso, esse estudo constatou outro dado importante: um conflito civil pode custar cerca de 30 anos de crescimento do PIB e gerar a perda de mais de 20 pontos percentuais no combate à pobreza. Imaginem isso em um mundo lotado, em que o vínculo entre a escassez, a lotação e as migrações pode despertar tensões?

Um exemplo de tensão? Claro! Vamos dar dois, um interno e o outro externo. Um estudo lançado pelo UN-HABITAT, em 2003, verificou o aumento crescente das condições degradantes de moradia, com a tendência para a elevação do número de favelas. Em 2001, 924 milhões de pessoas, o que correspondia a 31,6% da população urbana mundial, viviam em favelas, e o prognóstico é que esse número alcance 2 bilhões de pessoas até o ano de 2030. Já o Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD de 2004 estimou que quase 900 milhões de pessoas – na época, quase uma em cada sete pessoas do mundo – eram discriminadas ou prejudicadas por causa de sua identidade e enfrentavam a exclusão cultural, econômica e política.

Poderíamos, também, falar sobre o aumento das atividades ilícitas e sua vinculação com o aumento de riscos para um mundo cada vez mais lotado. Será que veremos novas guerras, ondas de xenofobia, crises de identidade, entre outras coisas, nos próximos anos? Tomara que não.


Categorias: Conflitos, Polêmica


3 comments
Anonymous
Anonymous

controle de natalidade no terceiro mundo é a via de solucao,como efetivar este controle nos locais esquecidos pelos governantes...bom essa resposta eu não tenho,quem tiver me responda por favor.PAULO RICARDO REGO.ADVOGADO ESPECIALISTA EM DIREITO ELEITORAL

Giovanni Okado
Giovanni Okado

Oi, Jéssica. Mais uma vez, agradeço-lhe pelo comentário e elogio. Suas colocações são muito precisas e chamam a atenção. Como resultado da atual crise econômica que assola a Europa, paradoxalmente, ao mesmo tempo em que há desempregos, aumenta o fluxo de imigrantes - sobretudo, em função da Primavera Árabe -, mas as portas se fecham. Até quando? Pelas estimativas populacionais, a população europeia está envelhecendo e vai faltar gente para trabalhar. Será que os "malditos imigrantes", para utilizar o termo de uma postagem antiga do Luís Felipe, maltradados, discriminados, etc., vão voltar a bater a porta da Europa?Sobre a eclosão de novos conflitos, sem dúvidas, as disputas por recursos naturais podem retomar a primazia dos conflitos interestatais sobre os intraestatais. Além disso, poderão deixar de ser localizados e se disseminarem por outros países. Por exemplo, sabe-se que a Coreia do Sul está arrendando terras em Madagascar para produzir alimentos para alimentar seus cidadãos. E se Madagascar dizer não a essa prática? Acho que, mais do que nunca, vivemos em uma era de muitas incógnitas.Abraços

Jéssica
Jéssica

EiiiBela análise!Então, quanto a pergunta do final do post, eu, na minha humilde opnião,também gostaria que não houvesse essas disparidades entre as pessoas. No entanto,posso parecer meio pessimista, mas o que se vê é um aumento de xenofobia, principalmente depois da crise econômica ( os franceses em relação aos ciganos, os espanhóis contra os estrangeiros,principalmente latinos e por aí vai), sem contar o preconceito existente da maioria dos ocidentais para com os muçulmanos, fato agravado principalmente depois dos atentados às torres gêmeas. Além do que, no que diz respeito às novas guerras, têm vários fatores contribuindo para o surgimento das mesmas, por exemplo a escassez de recursos como petróleo e água e ainda tem o caso da Primavera Árabe que em alguns países ainda pode gerar alguns conflitos,as várias etnias no Leste Europeu e no Cáucaso que querem a independência e muitos outros casos que se não receberem a devida atenção podem agravar-se.Abraços!