Um mundo em lotação: o que escolher?

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Em seguimento ao post da semana passada, continuemos apresentando um retrato deste mundo em lotação e suas implicações para as relações internacionais. Nestes tempos de escassez, inevitavelmente, teremos que fazer escolhas. Que escolhas faremos? Eis um princípio basilar da economia, as pessoas enfrentam tradeoffs: para conseguirem algo que desejam, precisam abdicar de outra coisa de que gostam. Isso é importante para que elas tomem boas decisões, na medida em que compreendam as opções disponíveis.


Que tal voltarmos à questão dos alimentos? Vejamos este dado: para se produzir 1 kg de carne, são necessários 20.000 litros de água, enquanto que produzir 1 kg de cereal demanda 1.200 litros. Mas é possível aumentar a produção de carne e de cereais indiscriminada e simultaneamente? Comeremos carne ou cereais? E, se decidirmos comer os dois, beberemos água ou tomaremos banho? De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2006, 1,1 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável e 2,8 bilhões não têm as mínimas condições de saneamento; apenas a agricultura responde por 70% do uso da água doce disponível no mundo. Para 2030, estima-se que a demanda por alimentos aumentará em 50% e a demanda por água, em até 40%.

Este cenário ainda se agrava. A escassez dos alimentos e da água enfrenta ainda outros tradeoffs, quando se adiciona as mudanças climáticas e a questão energética. Um estudo realizado em 2006, pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), verificou que a emissão de gases estufas das atividades pecuárias supera a emissão do sistema de transporte mundial. Gases estufas, como se sabe, geram aquecimento global, e o aumento de um grau Celsius na temperatura do planeta provoca a diminuição de 10% no rendimento da produção de cereais. Nós comeremos menos cereais… E menos carne, a não ser que queiramos viver no Saara e os rebanhos aprendam a fazer fotossíntese.

Então, o que vamos comer? Aí, depende da criatividade. Que tal um grilo? Só não façamos isso na China; lá, os grilos têm sua própria UFC. Mas não desanimemos, já há mais de 1.000 variedades de insetos comestíveis em pelo menos 80% dos países do mundo. Algum dia, talvez peçamos um Mc’ Gafanhoto, com saúvas crocantes. Em 2013, está prevista uma conferência mundial para discutir sobre os insetos comestíveis. Há bandas de rock ou pessoas famosas que adquiriram o hábito de deixar de comer carne um dia por semana. Por falar em China, como sabemos, o consumo de cachorro é uma tradição milenar no país, que, com a ascensão de uma nova classe média, procura-se coibir a prática. O que há de errado em mandar o Snoop para a panela? É preferível um chinesinho roubando cachorro para alimentar o mercado negro?

Vamos para a questão energética. Qual o tradeoff que enfrentaremos? A matriz energética mundial é composta por 85% de hidrocarbonetos. Petróleo polui. Energia nuclear dá problema, não só pelo temor de novos “Japões”, mas porque alguém, de repente, pode acusar outrem de fazer bombas. Isso permitiu um regresso para o passado: continuar gerando energia energética com reatores da época de “Os Trapalhões” e fazer guerras infantis. Escolhas precisarão ser feitas, ainda mais em se tratando de uma demanda energética mundial que se elevará 40% em 2030. Por um lado, a atual matriz causa o aquecimento global, que causa a queda na produção de alimentos, mas, por outro, a busca por fontes alternativas tem suas implicações; por exemplo, há uma previsão de que 5% do transporte rodoviário global será abastecido por biocombustíveis, o que representaria um consumo impreciso, entre 20% e 100%, da quantidade total de água destina à agricultura – a extração de gás natural também demanda o uso altamente intensivo de água.

(Confiram as publicações do Forum Econômico Mundial, particularmente as publicações intituladas “Global Risks“. Vejam também o site da FAO e estes artigos 1 e 2. A maioria dos dados forma extraídos destas fontes.)

É muito simples nós dizermos que a escassez gera conflitos, imigrações, instabilidade, entre outras coisas, mas é preciso ver, nas minúcias, como isso ocorre. O reino da vida e da morte, nas relações internacionais, pertence cada vez mais aos indivíduos e menos aos Estados. Por falta de alimentos, água, energia e pelo calor, as pessoas fenecem antes dos príncipes. Ainda pior, os tradeoffs que já se enfrentam parecem conduzir a uma inevitável Lei de Murphy: tudo dá errado! Qual é a saída? Do que abdicaremos para ter o que queremos? Somos 7 bilhões em ação, 7 bilhões de opções e 7 bilhões de expectativas…


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Economia, Polêmica


2 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

Realmente, talvez uma das áreas mais estratégicas para se pensar hoje em dia seja a melhor utilização dos recursos hídricos, Danae.A perspectiva de ação a longo prazo ainda parece estar muuuito longe na visão de muitos...

Danae
Danae

Será que baratear o custo da tecnologia para transformar água salgada em água doce não é uma saída? Porque a água é mesmo muitíssimo essencial.