Um mundo em lotação: entre a escassez e a omissão

Por

No post de ontem, o Álvaro já destacou um acontecimento histórico: ontem, chegamos a 7 bilhões de habitantes no mundo. Quando Piotr, o bebê russo que nasceu em Kaliningrado, ou quando Enrique Ona, o bebê filipino que nasceu em Manila, chorou pela primeira vez, a marca foi alcançada. Uma hora ou outra, atingiríamos esse número, porém, é preciso uma análise mais detalhada sobre o crescimento populacional e suas repercussões, em médio e longo prazo. (Vejam esta avaliação da OECD).

Recordemos uma historinha narrada pelo renomado economista indiano Amartya Sen, ganhador do Nobel de Economia em 1998. Conta-se que, por volta do século VIII a.C., uma mulher chamada Maitreyee e seu marido, Yajnavalkya, estavam debatendo sobre os caminhos e os modos de se tornarem ricos, e em que medida a riqueza os ajudaria a obter o que desejavam. Maitreyee questiona se a riqueza lhe traria a imortalidade, ao que responde Yajnavalkya: “não”. E replica Maitreyee: “de que me serve isso, se não me torna imortal?”. Esse é ponto central do desenvolvimento humano, um processo expansivo das liberdades fundamentais dos seres humanos e da libertação de todas as formas de privações (pobreza, fome, desemprego, racismo, etc.) que os impedem de viver uma vida digna. É possível conciliar desenvolvimento humano e crescimento populacional?

Fonte: UNPA, Relatório sobre a população mundial 2011.

As pessoas que vêm aí não querem apenas dinheiro; querem comer, vestir-se, votar, amar, enfim, fazer escolhas sem qualquer constrangimento estrutural, para serem felizes, ainda que isso não lhes traga a eternidade. Mas vivemos em tempos difíceis e, a despeito dos excessos malthusianos do século XIX, um dilema é certo: mais habitantes significa menos recursos (água, alimentos, energia, etc.). O século XXI, inevitavelmente, será o século da escassez, e o grande desafio, postulado básico da economia, é como gerenciar os recursos escassos para uma população cada vez mais crescente.

A escassez dos recursos suscita inúmeras e infindáveis discussões. Alguns dizem que o problema dos recursos é o gerenciamento inadequado, outros dizem que eles inevitavelmente se esgotam. Qual a capacidade que temos de responder a isso? (Confiram este artigo da Al Jazeera) Além dos recursos naturais, muitos problemas giram em torno de recursos materiais, que exacerbam a má gestão dos recursos. Vejamos os dados de um estudo do PNUD, liderado por Caroline Thomas: no final dos anos 1990, a estimativa é que o organismo gastava, anualmente, US$ 6 bilhões com a educação básica, US$ 9 bilhões com água e saneamento e US$ 13 bilhões com a saúde básica e reprodução, enquanto os gastos anuais dos Estados Unidos com cosméticos eram de US$ 9 bilhões, da Europa com sorvete eram de US$ 11 bilhões, e os gastos militares globais atingiam US$ 780 bilhões.

Com base nos dados acima, poderíamos dizer que os problemas sociais que se alastram pelo globo são eminentemente um problema político, e não simplesmente de escassez. Falta vontade da comunidade internacional. Não fosse assim, não teríamos 1,2 bilhões de pessoas vivendo com menos de um dólar por dia, número que aumenta para 2,8 bilhões quando se eleva para menos de dois dólares diários e, até mais alarmante, 80% da população mundial vive com menos de dez dólares por dia! Em países como Etiópia, Tanzânia, Burundi, entre outros sete países, praticamente, 100% da população vive nessa última faixa.

É fato que a escassez de recursos naturais é indissociável à escassez de recursos materiais. A fome, por exemplo, tem duas facetas: por um lado, produzem-se alimentos suficientes para a população mundial, mas são mal distribuídos (às vezes, opta-se por alimentar rebanhos a alimentar seres humanos!); por outro, os preços dos alimentos encarecem e tendem a permanecer alto (ver também este artigo do futuro diretor da FAO, o brasileiro José Graziano), talvez até superem o pico que atingiram na década de 1970, à medida que aumenta a demanda (em longo prazo, a tendência é também a diminuição da oferta, o que elevaria ainda mais os preços). Como disse Lester Brown, em artigo na Foreign Policy, um aumento no preço do pão pode fazer um norte-americano comprar menos pão, mas, para um indiano, isso significa fazer uma refeição diária. Atualmente, há 925 milhões de pessoas desnutridas no mundo e cerca de 25.000 morrem de fome, ou de causas relacionadas à fome, por dia (isto representa uma pessoa morta a cada três segundos e meio em 24h).

Para não nos cansarmos com este post, paremos aqui. Façamos uma reflexão sobre o que estes dados representam e retomemos nosso fôlego para prosseguirmos em outra oportunidade, na qual teremos mais números inquietantes.


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Economia, Polêmica, Política e Política Externa


6 comments
Marcos menezes
Marcos menezes

E difícil não pensar sobre o assunto de forma preocupante, tanta mudanças globais como clima evolução tecnológica o avanço da ciência, e o tema a fome não tem sido prioriadade de forma pratica temos ouvido falar anos sobre o assunto. Com o aumento da população mundial aumenta-se ainda mais a miséria de países que estão profundamente na pobreza carentes de auxilio de materiais para sua sub existência, devemos refletirmos verdadeira mente sobre que eu tenho feito para mudar esta realidade.

Giovanni Okado
Giovanni Okado

Bianca e Alcir,É sempre muito bom estender este debate, porque se trata de um tema extremamente interessante e inquietante. Gostei de sua reformulação, Bianca, da teoria malthusiana. E, continuando em Malthus, acho que o espectro dele ronda os desafios da contemporaneidade, sim. Mas, como o Alcir já ressaltou, o elemento tecnológico e o controle populacional, práticas que passaram a se desenvolver a partir do começo do século XX, em conjunto com a revolução verde, não foram previstos pelo pensador e cabe aos pensadores do século XXI aprimorar isso.Daqui a três décadas, é difícil dizer como estaremos, mas, muito provavelmente, a população mundial estará próxima dos 9 bilhões. Nos últimos anos, a tendência é que aumente em 1 bilhão os habitantes do planeta a cada 14 anos. Se, agora, os recursos já são escassos, naturais e materiais, imaginem no futuro? Aliás, na minha modesta opinião, o principal problema disso é a distribuição equitativa dos recursos. A comunidade internacional não está atenta a isso e, em um mundo completamente, independente, a escassez pode se transformar no grande elemento de instabilidade: não só por causa de guerras, mas pelas redes terroristas, narcotraficantes, revoltas, etc.Eu gostaria de ser mais otimista, mas não consigo. Acho que a humanidade, infelizmente, só evolui, de fato, quando atinge algum ponto crítico. Do ponto de vista econômico, esta década, parece que se apresenta como um ponto crítico, na qual transformações são necessárias. Em relação ao melhor aproveitamento dos recursos e a tecnologia, tenho minhas dúvidas. Admito que não tenho informações diretas sobre o quanto as empresas tem investido em inovação, mas li uma entrevista com um dos maiores enxadristas do mundo, o russo Gaspar Kasparov, que defende que falamos mais em otimização da tecnologia do que propriamente em inovação. A Apple investe 2% do seu orçamento em inovação. O que entendemos por isso? Como aplicamos? Será que otimizar será o suficiente? Aqui tá o link: http://www.fronteirasdopensamento.com.br/portal/noticias/2011/09/06/garry-kasparov-no-fronteiras-poaPeço desculpa, Alcir, gostaria até de tratar mais sobre essa discussão que vc levantou sobre os recursos, mas pretendo abordá-la no próximo post, ok?Abraços

Alcir Candido
Alcir Candido

Interessante debate e ótimo post! Quando penso nessas questões, impossível deixar de lembrar de Malthus. As mesmas dúvidas e questões que nos assombram deixaram o coitado de cabelo em pé.Acredito que estamos vivendo o mesmo debate dele, e esquecendo as mesmas coisas que foram esquecidas à época: O progresso tecnológico.Inquestionável que os recursos são cada vez mais escassos e não há técnologia (pelo menos até hoje) que consiga replicar o milgare da multiplicação dos pães.Como não é de bom tom apostar na volta de Jesus Cristo encarnado produzindo esse milagre em larga escala, a questão de fato incomoda...No entanto, temos de pensar que há várias áreas não cultivadas no globo, além de que a tecnologia e a produtividade agrícola tendem a aumentar, são investidos bilhões em pesquisas nessas áreas todos os anos e acho impossível nenhum infeliz não descobrir nada que ajude.Ainda, acredito que as novas gerações tendem a ser mais conscientes no que diz respeito à quantidade de recursos que se utilizam para nossos padrões de vida.Acho que corremos o risco de, neste debate, fecharmos os olhos para essas e outras questões... Enfim, sou otimista! rsrs

Bianca Fadel
Bianca Fadel

Seu post realmente traz muitas informações interessantes, Giovanni! A reflexão sobre o fato de "atingirmos os 7 bilhões de habitantes" no planeta Terra tem me suscitado uma série de inquietações...Particularmente acredito que já passamos da "meta" dos 7 bilhões há muito tempo se pensarmos que, em países que enfrentam dificuldades estruturais em seu desenvolvimento social (ou que se encontram em situações de crises humanitárias), uma quantidade inimaginável de nascidos não foram (e não são) registrados.Sem entrar no mérito dos dados e dos aspectos que você e a Jéssica já expuseram muito bem, acho que se a população mundial aumenta em progressão aritmética, os desafios a serem enfrentados aumentam, por sua vez, em progressão geométrica. (Malthus certamente faria um bom estudo de caso da situação! hehe)Se nas últimas três décadas o mundo sofreu tantas incontáveis mudanças, vocês conseguem imaginar como estaremos daqui a três décadas? Sinceramente, eu penso nisso com alguma frequência sem conseguir imaginar o fim do horizonte de possibilidades... mas, bom, veremos, né?! ;) Reflexão não falta nesse tema!Beijos!

Giovanni Okado
Giovanni Okado

Oi, Jéssica! Antes de fazer considerações sobre seu comentário, gostaria de dizer que suas contribuições para o debate são sempre muito bem recebidas por todos nós,colaboradores do blog. Aproveito, também, para reforçar o convite que a Bianca lhe fez em outra ocasião, escreva-nos um post, com suas ideias, angústias e preocupações sobre um tema de seu interesse. Deixe-me comentar agora: 1) Em relação aos gastos militares, vejamos uma coisa interessante: de maneira geral, entre 2001 e 2009, eles cresceram por volta de 5,1% e, mesmo elevados, não significa que esses recursos são inteiramente destinados às guerras (por exemplo, os países, recorrentemente, procuram modernizar suas forças armadas). Nos últimos anos, a tendência tem sido a diminuição do número de guerras e, mesmo quando há guerras, os conflitos são localizados, ocorrendo dentro dos países, e não entre eles. (recomendaria uma olhada no site: http://www.sipri.org/, onde vc poderá encontrar muitas informações bacanas). Por isso que este mundo, muitas vezes, é tão maluco, né?! Por que nos armamos tanto, não travamos guerras, mas condenamos outros seres humanos a vidas miseráveis?!Gostei muito da sua perspicácia em capturar a questão das mudanças climáticas e sua correlação com a fome e falta de alimentos. Farei comentários sobre isso em outro post, pode ser?! E, na parte final, em que vc trata dos preços de alimentos, acho que seria da sua curiosidade dar uma olhada no link dos preços de alimento do post, que lhe direciona para o site da FAO. Sinta-se completamente à vontade para expressar demais opiniões.Abraços

Jéssica
Jéssica

EEiiMuito legal seu texto!É lamentável toda esa situação( gente fiquei de cara com o tanto que se gasta com a guerra, comparado aos gastos de combate a fome!), e o pior é que apesar de metas e de objetivos contra a fome, esses números tendem a ter um aumento,pois junta-se fatores como a falta de vontade da sociedade internacional(ênfase nas grandes potências) aliada à fatores naturais como as mudanças climáticas ( aquecimento global). Um bom exemplo é o que acontece no Chifre da África, milhares de pessoas com acesso minimo ou nenhum a comida ( higiene então...)padecem.E o pior é que a crise nessa região já havia sendo anunciada há alguns anos e ninguem(leia-se comunidade internacional) dava a atenção devida!Quanto ao aumento dos preços dos alimentos, já vimos que o mundo ainda não se recuperou totalmente da crise de 2008, isso aliado ás alterações climáticas que afetam a produção desses alimentos, tem-se um cenário não muito otimista.Abraços!