Um mundo em lotação: a esperança

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Enfim, chegamos à última postagem sobre os 7 bilhões de habitantes do planeta Terra e suas repercussões. Desde já, é preciso ressaltar que esta discussão não deve ser encerrada aqui, e sim prosseguir entre vocês, leitores, e seus familiares, amigos, namorados(as) e demais conhecidos, com a finalidade de produzir novas e instigantes reflexões. Afinal de contas, este é um tema que interessa a todos nós e nos permite, com muita atenção, prospectar o futuro e delimitar nossas escolhas, a bordo de uma astronave que tentamos pilotar, como canta Toquinho em sua Aquarela.


Acompanhamos, ao longo das postagens que cobriram esta temática, desafios hercúleos, dados intrigantes (alguns revoltantes) e perspectivas de mudança diminutas. Ficamos, sim, desolados. Mas a vida é uma caixinha de surpresas, como diria Joseph Climber, personagem interpretado pela companhia teatral Melhores do Mundo, e o que se deseja, ao fim e ao cabo destas postagens, é transmitir uma mensagem esperança. A humanidade, embora seja uma família estranha, detém amor profundo.

O potencial humano não pode ser subestimado nunca. E, muitas vezes, ele é encontrado nas coisas mais simples. Uma mãe faz o possível e o impossível para sobrevivência de um filho, um filho faz o possível e o impossível para cuidar do pai doente e assim por diante. Vejamos um exemplo. Em uma palestra em 2005, o ex-comandante da Force Commander da MINUSTAH, o General-de-Divisão Augusto Heleno Ribeiro Pereira, exaltou o amor próprio do povo haitiano, pois em se tratando de um país pobre e com freqüente falta de energia, as pessoas sempre andavam bem vestidas, limpas e com as roupas bem arrumadas. Com tantas coisas para se preocuparem, tanta tragédia acontecendo, lá estavam os haitianos valorizando-se e sorrindo.

Nestas sombrias eras de escassez, de duas escassezes mais especificamente, uma que priva o mundo de seus recursos, outra que priva as pessoas de suas ideias, assistiremos a vivificação de muitos Fabiano’s de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e de muitos Severino’s, de João Cabral de Melo Neto. Os primeiros adaptam-se ao meio, os segundos retiram-se do meio. Água, alimentos, energia, entre outros recursos, não duram para a eternidade, e a má gestão deles pela comunidade internacional exacerba problemas, desloca pessoas, alimenta tensões e costura um frágil tecido social, materialmente distinto e culturalmente diversificado. Essas personagens já encontram seus dramas reais, como demonstra o Relatório do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) sobre a situação da população mundial em 2011, e já articulam mudanças, despertam sonhos e sustentam a esperança.

Nossas personagens reais e seus congêneres responderão as escassezes, talvez com protestos que culminem em ciclos de violência, talvez com o diálogo pacífico que termine em processos negociados. Riqueza não é tudo. Uma vida digna que nos permita ser felizes, sim. Para isso, não importa se o país é rico ou pobre, democrático ou autocrático, se as pessoas forem privadas de direitos que lhes são inerentes, elas sairão às ruas e os protestos de 2011 exemplificam bem isso. Por enquanto, as pessoas enrolam-se em suas bandeiras, mas, no futuro, pode ser que se abracem em nome da bandeira da humanidade, independentemente de pátrias e territórios. Outra vez, poderíamos retomar a poesia de Melo Neto, em sua estrofe final: “E não há melhor resposta/que o espetáculo da vida:/vê-la desfiar seu fio,/que também se chama vida,/ver a fábrica que ela mesma,/teimosamente, se fabrica/vê-la brotar como há pouco tempo/em nova vida explodida.”

Por trás de cada número, há uma possibilidade e uma potencialidade. Há uma esperança. É certo que enfrentaremos grandes dificuldades quando uma nova aurora nascer, mas tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, diria Tom Zé. A incerteza, nas palavras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é o hábitat natural da espécie humana, e as nossas vidas, quer queiramos ou não, são obras de arte, o que exige estabelecer desafios difíceis de confrontar e escolher alvos e padrões de excelência muito além do nosso alcance. É preciso tentar o impossível. A esperança não é necessariamente a última que morre, e sim a primeira que vive: é o que acreditamos e esperamos que determinam nossas escolhas. E lembremos, para encerrar, uma canção chilena de Violeta Parra, intitulada La esperanza: “Não pode nem o mais extravagante/passar em indiferença/se brilha em nossa consciência/amor pelos semelhantes.”


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica


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