Um monólogo dual

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Isto é o que aparenta ser as relações entre Estados Unidos e Brasil neste ano. Convergências formais e divergências atuantes, mas pouco caso sobre a repercussão que a posição sustentada por uma das partes teria sobre a outra, sem ilusões acerca do imperialismo do Norte ou do protagonismo do Sul. Desconfianças, reclamações e Wikileaks à parte, são dois países que marcham autonomamente em direção ao destino, cujo cálculo estratégico – sobre ou supervalorizado – enseja o raio de ação que vislumbram.

No início do século XX, Barão do Rio Branco profetizou que este seria o século dos Estados Unidos e que era preciso seguir junto com a grande potência em formação. No entanto, a opção por segui-la não deveria pressupor alinhamento automático e tampouco submissão. O Brasil o fez. A história da relação bilateral não pode ser aprisionada no estereótipo das perenes relações amistosas. Temas sensíveis nos quais surgiram desacordos também afloraram como, por exemplo, a política de barganha durante a Segunda Guerra Mundial, a expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos e a contestação da ordem internacional a partir da década de 1970, numa prática da política externa brasileira que se convencionou chamar de “autonomia pela distância”.

E agora, o que há de tão diferente? Existe uma clara afronta brasileira aos Estados Unidos? Honduras, Colômbia, Irã, Oriente Médio, Conselho de Segurança não seriam temas tão sensíveis pelas quais a relação bilateral historicamente passou? São indagações para aguçar a nossa curiosidade sobre as relações internacionais à luz da percepção de dois países. O século XXI não parece ser mais o século dos Estados Unidos e pode ser o da China. O gendarme norte-americano caducou pelo mundo. A segurança e a paz não se restringem ao uso da força. A desregulamentação econômica traduziu-se em desordem e crise. E o Brasil diante disso?

Está se reposicionando neste ordenamento global em gestação. A China é agora o nosso maior parceiro comercial. A estratégia brasileira de segurança e paz internacionais prima pela multilateralidade da palavra e pelo esforço cooperativo no envolvimento de diversos atores. A percepção de que a ordem mundial, em suas diversas facetas, não pode ser administrada unilateralmente, senão por coalizões, parcerias e projetos de integração. Muitas vezes, as divergências tópicas com relação aos Estados Unidos escondem esse pano de fundo que perpassa a orientação diplomática brasileira.

No século XXI, os Estados Unidos apresentam-se menos capacitados para oferecer soluções aos problemas mundiais como o fizeram no passado. Podem continuar como uma grande potência econômica e militar, mas o capital político lhes escapa. Não se pretende, de modo algum, dizer que o Brasil apresenta os gabaritos para substituí-lo, mas sinalizar que as diferenças não demarcam necessariamente um confrontacionismo natural e esquizofrênico. São opções, escolhas e interesses perante o mundo que vem aí, de modo que ambos se aproximarão ou se distanciarão conforme julgarem conveniente.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Política e Política Externa


1 comments
Jéssica
Jéssica

EEiiEntão, esse século é uma incognita,pois os E.U.A estão passando da posição de superpotência para potência fazendo com que o mundo fique mais multilateral e ainda tem a China que ninguém sabe ao certo o que ela quer, uns dizem que ela concerteza substituirá o papel dos estadunidenses, já outros falam que ela quer apenas ser uma potência, ela não quer substituir ngm e tem como justificativa a de que o primeiro cai, o segundo tbm, mas o terceiro fica intacto. Logo, o desenrolar dessa hiostória veremos nos próximos capitulos!!Abraço aí!