Um jogo sem tempo

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Nos jogos de futebol nem tudo é decidido no primeiro tempo. Para que isso aconteça é preciso que se esteja muito bem no jogo e que o adversário não tenha tanta reação. De maneira semelhante parece estar funcionando o jogo da transição para a democracia no Egito. Para que se tivesse obtido sucesso logo nos primeiros movimentos, seria preciso uma vontade muito grande de todos envolvidos (nisso também falo dos que tem cargos no governo). O que não ocorreu.

Ora, essa comparação com futebol poderia parecer banal para qualquer outro caso, mas, considerando que para o povo egípcio, esse esporte parece estar junto deles na “primavera egípcia”, é válido. Na tarde de 01 de fevereiro, o jogo entre dois times locais teve quatro gols, quase 74 mortos, 1000 feridos e foi marcado pelos dribles da polícia, que evitou ao máximo intervir nos momentos da tensão. Esse triste evento foi também alvo de suspeitas. A inação da polícia não pode ter sido orientada pelo governo para mostrar que tudo andava muito instável?

Qualquer que seja a resposta que o povo encontrou, para um país que já se encontra em situação de incerteza sobre o futuro da democracia, a mínima dúvida sobre a integridade de um governo de transição já é capaz de alavancar mais protestos. E de fato ocorreu. O jogo foi um marco. Um triste marco para a história do esporte egípcio, mas, um marco que garantiu novo fôlego para os protestos da população, encontrando nas torcidas organizadas, o mais novo aliado.

Mas em qual tempo o jogo da democracia egípcia se encontra? Teríamos um empate ou a população já estaria perdendo depois dos lances de perigo que as respostas violentas da Junta Militar representaram? Bom, o cronograma adotado, diga-se de passagem, arbitrariamente, pelo governo está sendo seguido. O processo eleitoral do legislativo já vem sendo conduzido desde dezembro do passado e vai até o final de fevereiro. O registro dos candidatos para presidente também está marcado para o início de março e as eleições somente para junho.

Todavia, não é esse o cronograma que a população quer. Mesmo porque, em 11 de fevereiro, fará exatamente um ano que Mubarak deixou o poder. E para essa data, a festividade marcada foi uma greve geral pelas eleições presidenciais. A promessa do governo é responder a esses eventos à altura, mantendo a fórmula anterior. E, ainda, há alguns casos, como o julgamento judicial de 43 ONGs no país pró-democracia no país, dentre elas 19 estadunidenses, (justificando-se que estão sendo beneficiadas por governos e organizações estrangeiras para realizar atividades ilegais, para mais sobre as ONGs, clique aqui e aqui), que levantam mais suspeitas de que o governo está querendo passar uma imagem de instabilidade para segurar-se no poder.

Não se pode dizer em que altura do jogo da democracia o Egito está. Em alguns momentos a população tem aquele gostinho de gol marcado. Logo depois já sentem o dissabor de um gol do adversário ao final do segundo tempo. A população tem jogado como se estivesse com pressa, na prorrogação. Já o governo, parece querer segurar o resultado, após um gol no início do jogo. Nesse jogo sem tempo, com cada time com uma percepção diferente do relógio, quem sai perdendo é o Egito todo.

[É bacana lembrar o complexo e longo processo eleitoral do Egito, no qual cada votação é dividida por região em um sistema de eleições misto e complexo. Clique aqui para um interessante quadro explicativo sobre ele.]


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