Um ideal para lutar?

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1out2014

Uma das notícias mais inusitadas da semana foi a revelação de que um ativista preso em São Paulo durante os protestos da época da Copa do Mundo está hoje lutando ao lado dos rebeldes separatistas ucranianos. Assim como a notícia do ex-soldado norte-americano que se juntou aos curdos na luta contra o ISIS, são comuns as notícias de pessoas que largam tudo para se juntar a alguma causa – e explicam muito das dificuldades encontradas pelos Estados nos conflitos atuais.

Até o final da Idade Média e começo da Moderna, a regra era que Estados contratassem mercenários. Não no sentido negativo que o termo tem hoje, mas como pessoas que escolhiam um ofício bem específico, o de lutar para quem os contratasse. E era um serviço muito bem feito, como atestam os famosos mercenários suíços que pintam em quase todas as guerras do período. Com isso a população civil nem precisava se preocupar com os combates (a não ser que chegasse ao seu quintal…). Isso muda com a consolidação do Estado Moderno, que entre suas características inclui a formação de exércitos regulares, sob controle do rei (afinal, não parecia ser a melhor das ideias que estrangeiros ficassem a cargo da proteção do país) e a conscrição de soldados a partir da população civil. Acima de um dever profissional, o cidadão deveria ir ao combate por razões mais vagas, como o sentimento de dever ou o nacionalismo – ou apenas por pura obrigação para não ir preso. Isso vale para os conflitos que assolam o mundo até hoje, e como o cidadão comum geralmente não tem muito interesse em morrer pelo país (apesar das muitas exceções), é necessário que haja uma atuação pesada em termos de propaganda e alistamento (como nos EUA) para que essa atividade se mantenha. Os benefícios ofertados para o soldado de hoje tem de ser muito mais que um salário (como bolsas estudantis e plano de saúde) para que se arrisquem desse modo.

Então o que acontece com as pessoas que largam tudo para se juntar a uma causa, muitas vezes suicida, em outra parte do mundo? É irônico constatar que, enquanto noções vagas e até mesmo construídas como o nacionalismo era usadas como justificativa para a conscrição, boa parte desses viajantes o faz justamente por razões de identidade e comunidade. Talvez a primeira grande manifestação disso seja lá nos anos 30, durante a Guerra Civil espanhola, mas pense hoje nos americanos e ingleses que se unem à luta na Síria ou ao ISIS – fora o laço da religião não existe nada que os obrigue a isso. Mas o mundo contemporâneo possibilita a formação de redes de informação que facilitam a troca de informações e ideias, aproximando pessoas com experiências semelhantes em círculos de convivência atrativos e à revelia da noção de identidade nacional. E como pessoas sem nada a perder, dispostas voluntariamente a combater por sua causa, lutam de maneira acirrada, por vezes indo além do que se espera da disciplina militar regular e recorrendo à guerrilha e ao terrorismo.

Tal é o desafio das guerras do século XXI. Na ausência de conflitos entre democracias, os mercenários de ontem não encontram reflexo nos combatentes de hoje. O que se opõe via de regra são exércitos regulares embasados em um modelo tradicional (mas custoso para que se mantenha funcionando), contra indivíduos dispostos às últimas consequências para defender um ideal – ou mesmo a luta destes entre si.


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