Um gol pela união nacional

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Segue o impasse em Honduras. Porém, ao menos, existe um motivo para comemoração. O país, na noite da última quarta-feira, conseguiu se classificar para a Copa do Mundo de 2010 – segunda vez na história -com a vitória por um a zero sobre El Salvador. Mas muitos podem perguntar, e eu com isso?

O futebol é somente um esporte, não?

Engana-se profundamente quem acredita que o jogo termine dentre de campo. Um exemplo, nas eliminatórias da Concacaf (Confederação de futebol que congrega os países da América Central e do Norte) para a Copa do Mundo de 1970, Honduras disputava uma vaga para a competição. Foram três jogos, o primeiro vencido por Honduras e o segundo por El Salvador. Em uma terceira partida – em campo neutro – El Salvador garantiu presença no mundial de 1970, vencido pelo Brasil de Pelé.

As hostilidades nos dois primeiros jogos trouxeram mais tensão a crise diplomática que viviam os dois países – que já discordavam em relação ao tratamento dado a imigrantes salvadorenhos que entravam ilegalmente em Honduras. Uma jovem salvadorenha se matou após a derrota no primeiro jogo, em Tegucigalpa, devido a revolta em relação ao tratamento ao time do país em Honduras. Virou mártir, com funeral transmitido ao vivo a seus compatriotas. No segundo jogo, a seleção hondurenha teve de ser levada ao estádio em carro blindado, e após o jogo hondurenhos foram agredidos nas ruas de São Salvador – alguns terminaram mortos.

A classificação de El Salvador não bastou para acalmar os ânimos salvadorenhos. Em julho de 1969, o exército do país invadiu Honduras. O conflito só cessou ante a mediação da OEA. O conflito ficou conhecido como a Guerra do Futebol. Esse é só um exemplo de que o futebol não termina necessariamente em campo com o apito final do juiz.

E novamente, 40 anos depois, Honduras e o futebol. Tegucigalpa, capital do país, não enfrentou as usuais manifestações políticas na noite de quarta-feira. Na verdade, a política ficou de lado. Micheletti, presidente interino, decretou o dia seguinte à classificação para Copa como feriado nacional. Finalmente um consenso no país: comemoração e um dia para a ressaca.

Ainda assim, existe um perdedor nessa história toda. Nosso amigo para todas as horas, Zelaya. Micheletti exultou o nacionalismo hondurenho, esvaziando o prazo final do presidente deposto para o acordo – terminava à meia-noite de quarta-feira. Os planos dos apoiadores de Zelaya foram suprimidos pelas manifestações populares em comemoração a vitória no futebol. E agora? Todos parecem preferir o futebol à política.

Se a seleção jogasse toda a semana até o início da Copa, Zelaya provavelmente terminaria por assistir da Embaixada Brasileira os jogos de sua seleção na África do Sul. Micheletti, contudo, não parece ter forças para capitalizar mais em cima da conquista. Ganhou alguns dias, frente a um acordo em que a maioria dos pontos já estão decididos, faltando só o principal: quem governará o país até o novo presidente assumir – isso, é claro, se as eleições acontecerem no final de Novembro. Mas o futebol já deixou sua marca, esse era o ponto em que queria chegar.


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