Um estranho Irã

Por

Em pleno século XXI, o homossexualismo ainda é um tema que gera muita discórdia mundo afora. Alas conservadoras de diversos países olham com certa intolerância para algo que já deveria ser mais do que aceito. Se na política das democracias liberais já se tem esses problemas todos, quando se mistura o homossexualismo com tradições religiosas e regimes mais fechados o resultado não é muito bom. 

Mas o caso do Irã é surpreendente. Quando comecei a ler sobre a posição dos homossexuais no país, não tive outra reação a não ser estranheza por um misto de surpresa e repúdio pelas ideias do governo. 

Vamos começar pela sensação ruim, o repúdio. Quem acompanhou de perto os discursos do queridinho da América, Mammoud Ahmadnejad, já tinha evidências suficientes de que os homossexuais não são bem vistos no Irã. Em Nova Iorque, durante a Assembleia Geral da ONU, ele disse que não existiam homossexuais no país e que dar apoio aos gays era coisa daqueles que apoiavam o crescimento do capital, buscando “3 ou 4 votos a mais”

Como era de se esperar pelo discurso do presidente, no país a “prática” do homossexualismo é considerado um grave crime, e os homossexuais, ofensas à humanidade. Antes da reforma no código penal, o intercurso sexual consensual entre pessoas de mesmo sexo era considerada uma violação capital. Atualmente, quem teve um “papel mais ativo” (?) no ato pode ser açoitado 100 vezes e, se for casado, pode ser sentenciado à morte. Ou seja, a vida de homossexuais no Irã não é nada fácil (para mais, leiam esse interessante artigo do The Guardian). 

A segunda sensação que me veio ao ler mais sobre o tema foi surpresa. Porque existe um outro lado bem interessante para essa situação toda. Um lado que, por incrível que pareça, pode beneficiar parte desse grupo. Enquanto os homossexuais não são bem quistos, os transexuais são vistos de forma diferente. Segundo a legislação, são considerados pessoas nascidas com uma doença grave por terem a mente certa no corpo errado. 

Essa visão foi desenvolvida pelo próprio fundador da República Islâmica do Irã, o Aiatolá Rhuhollah Khomeini. Tudo começou quando ele comoveu-se com a história de um rapaz que alegava ter nascido mulher no corpo de homem. Foi então que em 1984, o aiatolá aprovou uma lei que legalizava as cirurgias de mudança de sexo no país. Essa diferenciação complicada entre homossexuais e transexuais ampliou-se a partir dos anos 2000. Algo que adicionou à minha sensação de estranheza e repúdio mais uma pitada de surpresa. A partir da última década o Estado passou a subsidiar 1/3 do valor total das cirurgias de mudanças de sexo no país se a pessoa fosse diagnosticada com “profundo distúrbio de identidade de gênero”. Para tanto era preciso passar por um médico, um psiquiatra e um psicólogo para que o recurso seja liberado.  

De um lado, é possível que os homossexuais com interesse em um corpo oposto ao que nasceram se beneficiem e atinjam um sonho com mais facilidade. Beneficiem-se dessa política governamental. De outro, é como se o incentivo governamental apenas incentivasse ainda mais o preconceito e a discriminação. Isso porque a cirurgia não é vista como de “mudança de sexo”, e sim de “correção de sexo”. Como se sentir atraído por pessoas do mesmo gênero fosse um crime, uma doença, portanto, seria necessário remediá-lo com as cirurgias. 

Após refletir um pouco me dei conta que a estranheza era devido à maquiagem do preconceito, à violência contra os homoafetivos aliada à possibilidade de os transexuais atingirem um sonho. É interessante notar que o Irã não difere muito de outros países teocráticos e de sociedades mais conservadores em sua conduta com os homossexuais. Sua política de incentivo aos transexuais fundamenta-se, principalmente, em uma noção discriminatória. Da mesma forma, ainda é possível que haja um benefício para parte daqueles que gostariam de trocar de sexo. Uma mistura complicada e complexa. Por essas e outras, é inegável que os homossexuais que escolhem viver por lá deparam-se com um estranho Irã, onde o preconceito é institucionalizado, e a mudança de sexo, um remédio.

[Clique aqui, aqui e aqui para informações sobre documentário “Be Like Others”, de 2008, sobre os jovens iranianos que trocam de sexo]


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica, Política e Política Externa


3 comments
Raphael Lima
Raphael Lima

Ivy e Carlos,Obrigado pelos comentários. De fato a ideia de subsídio do Estado à mudança de sexo é muito interessante. Todavia, quando fundamentada pelo preconceito acaba por perder sua validade. O problema do Irã me parece ser que a homofobia e a discriminação são institucionalizados pelo Estado. Algo terrível para o convívio em sociedade, pois se incentiva a "desumanização" dos homosexual. Se no Brasil, por exemplo, onde não temos essa institucionalização, já há problemas graves de preconceito e discriminação, imagine no Irã, onde o próprio Estado as incentiva. Quanto ao termo "homossexualidade", obrigado pela adição, Carlos. Essa interpretação de correlação do sufixo "ismo" com doença mental e "prática" é bem comum no uso popular. Pelo que li no português europeu já foi abolida do dicionário a palavra "homossexualismo", mas no Brasil ainda há quem use ambas (até mesmo sem saber de sua etimologia). Apenas gostaria de salientar que, no texto, o uso da palavra se remeteu ao conceito de "homossexualidade", pois referia-se a pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo, mesmo porque outro uso anularia todo o argumento central. Muito obrigado pelas contribuições! Apareçam sempre por aqui!!

Carlos Eduardo Castro e Silva
Carlos Eduardo Castro e Silva

Excelente análise e uma visão muito interessante da questão da transsexualidade. Infelizmente o embasamento está no preconceito e a homofobia é, não somente chancelada, mas política de Estado. Algo que deve ser longamente discutido e enfrentado, em âmbito diplomático e jurídico. Só gostaria de salientar que o termo correto, ao invés do que consta no primeiro parágrafo, seria homossexulidade, uma vez que o sufixo "ismo" - homossexualismo - denota doença, o que não é considerada a realidade da homossexualidade e o que é explicitado pelo texto em si. No mais, um texto muito bom! Parabéns!

IvyMarrocco*
IvyMarrocco*

Poxa, me deu uma nova perspectiva! Não tinha idéia desse incentivo quanto a "correção de sexo". Embora beneficie aqueles que são transexuais, ainda é claramente uma forma de preconceito com relação ao tema...