Um desfecho sem final

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A troca de acusações entre Colômbia e Venezuela que levou ao rompimento das relações diplomáticas entre ambos os países está perto do seu final. O encontro entre Chávez e Santos (aqui, aqui e aqui) pode pôr termo à situação embaraçosa que perdura há aproximadamente três semanas, mas é mais um episódio da longa história de rivalidades e tensões que perdura por toda a América do Sul. Vez por outra, elas afloram num quadro de normalidade política supostamente instaurado na região e logo se aquietam, aguardando nova oportunidade para regressarem. (Este post foi escrito antes do encontro, podemos debater as repercussões do mesmo nos comentários.)

Em geral, no plano das idéias, as políticas externas se assentam sobre o cumprimento do grande destino da nação – como o “destino manifesto” dos Estados Unidos, o grand dessein de De Gaulle – e com a Venezuela não é diferente. Guardada as devidas proporções do tempo e do espaço, Chávez relembra o governo de Pérez Jiménez, quando este acreditava na grandeza venezuelana na região, graças às suas reservas de petróleo, o que lhe permitiria capitanear os esforços em prol da integração latino-americana, num sentido mais amplo. (Infelizmente, não tenho muitas informações sobre a historiografia colombiana, se alguém puder compartilhá-las, seria muito proveitoso.)

Outra ponto importante: por vezes, sobreleva-se a dimensão do narcotráfico e se diminui a dos conflitos interestatais. Um questionário de Segurança Hemisférica elaborado pela OEA em 1999 apresentou o narcotráfico como a principal ameaça ao continente e os conflitos armados como a quarta. Fato é que há praticamente 70 anos não ocorre um conflito armado de grande envergadura na região (o último foi entre Peru e Equador, 1941-1942). No entanto, seria ingênuo supor que eles estão eliminados por completo. Vários litígios posteriores ficaram no quase, como a questão do Estreito de Beagle em 1978 e a crise diplomática de 2008 entre Colômbia e Equador. Ademais, em tempos recentes, há a necessidade de se explorar melhor as perspectivas de desdobramentos do narcotráfico para conflitos interestatais.

Em meio a tantos percalços, ocorre novamente a idéia da integração. Por um lado, a mediação da UNASUL mostrou-se completamente falha e sem valor. Por outro, é hora de se pensar como criar arranjos políticos e institucionais vinculantes aos países-membros do bloco. É preciso passar dos surtos integracionistas para um processo contínuo, de maneira a concretizar essa busca tão antiga, cujas aspirações remontam as épocas independentistas, desde Simón Bolívar.

Por fim, há dois artigos que merecem um destaque especial. O primeiro, de Sombra Saraiva, considerou o episódio entre Colômbia e Venezuela um “Jogo combinado nos Andes”, já que Chávez procurou sufocar a informação de que o seu país é o único em recessão na região e Uribe reafirmou que a eficácia política está ligada à condução de um governo por mãos duras. O segundo, de Clóvis Rossi, argumentou que o teatro de Chávez é benéfico a todos, exceto às Farc. Sem pormenorizá-los ainda mais, o que chama a atenção em ambos é o tratamento do episódio como um “espetáculo”. Espetáculo este que, em grande medida, demonstra o entrelaçamento entre os mitos de política externa, as rivalidades e tensões, as perspectivas de conflito na região mais pacífica do mundo e os caminhos e descaminhos da integração. Espetáculo que aguarda uma nova platéia. Um desfecho sem final!


Categorias: Américas, Defesa, Paz, Política e Política Externa, Segurança


4 comments
Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

Muito bom post Giovanni.Está é uma temática muito intricada, me parece interessante a análise histórica que você traz. Gosto também na hipótese de Mário, há sim sentido no que você diz, mas não sei o que é mais forte o ego (marcar posição) ou a malandragem ("ajudar" Santos) de Uribe. Em posts anteriores, me coloco mais com a primeira opção, contudo a segunda também é lógica e possível.

Giovanni Okado
Giovanni Okado

Eu acredito que a sabedoria política de Uribe é inegável e, inclusive, é apontada no artigo do Prof. Sombra Saraiva. No entanto, chamo a atenção para outros fatores que passam imperceptíveis na região. Do ponto de vista conjuntural, certamente a crise diplomática tem um grande dedo de Uribe. Do ponto de vista estrutural, penso que ela ocorre no compasso de um grande ciclo de desentendimentos políticos vivenciados historicamente pela região. Este é o ponto que defendo no post.Enfim, é sempre profícuo o debate e acabei de ver que as relações foram reatadas. Vamos ver quanto tempo esperaremos para outra crise e todas as questões por ela engendradas.Abraços

Ivan
Ivan

Muito interessante sua tese Mário. É como se eles estivessem fazendo um "Bad Cop, Good Cop".E o Uribe é malandro o suficiente pra fazer algo dessas, além do Santos não ser nada bobo...

Mário Machado
Mário Machado

Insisto sozinho (ou quase não tenho como dizer que estou sozinho) na tese de que a movimentação de Uribe teve como objetivo facilitar o começo de governo Santos. Ok, parece contra-intuitivo, mas na prática é o que ocorre já que o cenário mais possivel é de diminuição da escalada verbal do Chávez que atingiu o limite da responsabilidade.Mas, reconheço que ainda preciso de elementos para testar essa hipotese que aventei e venho expondo desde a eclosão dessa última crise.Abs,