Um crime nada perfeito

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Depois do Egito, da Síria, chegou a vez da Tunísia mostrar que a queda de grandes ditadores e a consecutiva transição democrática não é algo simples e romanceado como o Tio Sam advoga mundo afora. Democracia não se vende e nem mesmo se força em um país, mas sim é construída de acordo com os valores e as demandas da sociedade daquele país. E esse processo nem sempre é simples e fácil. Pelo contrário, na maioria das vezes, é doloroso e cheio de idas e vindas. 

Essa introdução não poderia significar outra coisa que não o aumento das complicações internas na Tunísia. Isso mesmo, mais problemas. Novas idas e vindas. O país já não se encontra em um cenário de grade estabilidade desde o final do ano passado. Apesar de a queda do ditador Ben Ali forçar mudanças na sociedade e no sistema político (que passou de apenas três partidos para um multipartidarismo de quase cem partidos!), nenhuma delas significou que a população atingiu um nível de satisfação aceitável. Pelo contrário, o cenário ainda é tenso. O fato de o governo não conseguir lidar com o problema do desemprego, daquela tal assembleia constituinte estar travada há mais de dois anos e das manifestações estarem sendo reprimidas com excessiva violência, são alguns exemplos de como andam as coisas por lá. 

Não bastasse a multiplicação dos protestos pela situação política e econômica, que já são complicadores por si só, um novo ingrediente foi adicionado a essa mistura. O principal líder da oposição laica, representante do Partido dos Patriotas Democratas Unificados (PPDU) e da recém criada Frente Popular pelos Objetivos da Revolução, Shokri Beladi, foi assassinado no dia 06 à porta de sua casa. 

Beladi vinha aumentando o tom de suas críticas contra o governo, principalmente, pelas iniciativas radicais dos grupos salafistas e dos políticos que participaram da RCD (ex-partido de Ben Ali), e, consequentemente, de seu apoio ao partido governista, o Ennahda. O assassinato foi suficiente para deslanchar um efeito dominó. A oposição gritou, uma parcela significativa da população saiu às ruas em protesto e o primeiro-ministro, Hamadi Jebali, decretou a dissolução total do parlamento e a convocação de um gabinete de técnicos para tentar apaziguar o país. Tudo aponta para um crime político. Mesmo porque bastou Beladi acirrar suas críticas ao governo que poucos dias depois já estava morto. 

Agora, se teve algum partido governista envolvido, se foram grupos salafistas ou mesmo se visava-se incriminar alguém, não é sabido ainda. O que se sabe é que o crime desencadeou uma instabilidade política de grandes proporções na Tunísia. Novos protestos estão correndo as ruas e o próprio partido do primeiro-ministro se negou a aceitar a dissolução do parlamento. Tudo está progredindo rapidamente e os próximos dias serão cruciais. Mas o que é mesmo interessante dessa história toda é que se crime político buscava silenciar a voz da oposição laica acabou por despertar a voz de muitos outros que antes encontravam-se calados. 


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