Um Clima Indigesto

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O mês de dezembro passou. Foi-se o peru, o presente de natal e até mesmo esse período rechonchudo de festas. Mas de toda a comida festiva, o que tem sido mesmo difícil de engolir é o resultado da última Conferência do Clima da ONU no início de dezembro. Também conhecida como COP (Conferência Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), a 18a edição foi sediada em Doha, no Catar, e, como acontece todos os anos, teve sempre um volume muito grande de expectativa ao seu redor. A indigestão, que a conferência tem causado, foi resultado do sabor desgostoso que seguiu os poucos momentos de prazer da degustação de sua declaração final

O tema da vez era a postergação da validade do Protocolo de Quioto até 2020. Como nenhuma das COPs conseguiu produzir um acordo internacionalmente vinculante, era só questão de tempo até que o tema viesse à tona. Foi discutido em 2010 e 2011, mas sem sucesso. A pressão levou ao resultado. Dezembro de 2012 era a expiração do tratado e foi justamente nesse mês que optou-se por continuar com ele. 

Em um ano de muitos fenômenos climáticos alarmantes, um tratado era conveniente. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), entre janeiro e outubro de 2012 registrou-se o período mais quente desde que começou-se a medição em 1850. Isso fez com que as calotas polares perdessem 11,83 milhões de metros quadrados, 49% maior à perda média de 1979-2000. Mas, como já disse, o momento de euforia da aprovação não foi grande o suficiente. 

Se anteriormente o Protocolo de Quioto estabelecia uma redução média de 5,2% em relação aos níveis de 1990 para os países desenvolvidos e o estabelecimento do mercado de carbono e de “hot airs” (dentro do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo) para que alguns países pudessem vender suas reduções acima dos níveis para outros que reduziriam menos, a nova versão do tratado teve algumas perdas nesses quesitos e não parece suficiente por remeter-se a níveis de gases de efeito estufa mais de 20 anos atrás. 

Primeiro, observou-se a saída de importantes países desenvolvidos. Japão, Nova Zelândia, Canadá e a Rússia deram adeus ao protocolo. Isso significa que os países que sobraram são responsáveis por apenas 15% das emissões do mundo. Segundo, não será permitida a venda desses “hot airs”, impedindo-se que sejam distribuídas autorizações de emissões por aí, razão que levou alguns desses grandes países a deixar o protocolo. 

A inconsistência entre as expectativas e os resultados das conferências do clima tem se tornado uma regularidade. Mais do que isso, quase que uma fórmula certeira. Infelizmente, parece que os países envolvidos estão ficando presos em paradoxos de negociação. As intenções da Conferência são interessantes, e os avanços significativos (para uma década atrás). O problema é que inflexibilidade tem se tornado o maior entrave. E o maior inimigo nem mais é a mudança no clima, mas sim as negociações. 

A crise econômica foi a desculpa geral dos países desenvolvidos para não insistir nas reduções e não se vincularem ao novo acordo. Os países em desenvolvimento têm um misto de revanchismo e busca de justiça. Não querem ter que cortar suas economias agora que estão começando a crescer em virtude de erros e excessos de países desenvolvidos anteriormente. Ou seja, apesar de assinarem, ainda defendem um princípio de responsabilidades diferenciadas. 

E esse é o grande paradoxo. O princípio da inflexibilidade, a formula que torna toda reunião do clima aquela refeição que no começo até parece boa, mas depois nos faz pensar que não caiu bem no estômago. Quioto vigora, capengando, aos trancos e barrancos, até 2020. A data para um novo acordo internacional que vincule todas as partes é 2015 (como estabelecido em Durban). Ou muda-se a estratégia geral das partes e/ou o método de tomada de decisão (que é sempre consenso), ou estaremos fadados a mais fracassos em sequência. E, acima de tudo, teremos sido vencidos por nossas próprias negociações.

[Para relembrar o que foi falado no blog sobre a COP 1516 e 17, clique nos links ao lado]

[Para mais sobre o tema: 1, 2, 3, 4]


Categorias: Meio Ambiente, Polêmica, Política e Política Externa


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