Um ano sem aniversário

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A Ucrânia está em guerra há um ano. No dia 20 de fevereiro de 2014, o massacre de ativistas na Praça da Independência em Kiev (com mais de 50 mortos) foi o estopim de uma reação em cadeia inesperada que resultou na secessão da Crimeia e coloca o país em rota de conflito com a gigante Rússia.

Como está a situação após um ano? Infelizmente, assim como outros conflitos recentes (Líbia, Síria, Nigéria…) o que chama muita atenção no começo começa a perder um pouco de apelo (e da atenção) quando os combates se tornam recorrentes. Há uma semana foi assinado um acordo de cessar-fogo entre o governo de Petro Poroshenko e os separatistas, mas nada impede os combates. Notícias do dia relatam uma destruição semelhante à da Segunda Guerra Mundial em cidades como Debaltseve. Como esperado, o governo Putin dá risada das sanções econômicas ocidentais, continua a ajudar os separatistas e preocupa os vizinhos. Velhas práticas da Guerra Fria, como invadir o espaço aéreo de países da OTAN com bombardeiros Tupolev “Bear”, mantidas nos últimos vinte anos como uma ocorrência incômoda, passam a ter um significado muito mais aterrador nesse último ano.

A situação na Ucrânia é muito séria. O risco de a guerra sair do controle e afetar países vizinhos, direta ou indiretamente, é grande, apesar de depender do humor de Moscou. Mesmo a consideração de um conflito generalizado, apesar de praticamente nula, acaba passando pela cabeça dos líderes europeus e só por isso é algo aterrador. Um relatório crítico emitido pela Inglaterra (apesar de se considerar o euroceticismo) parece acertado ao sugerir que a União Europeia errou ao tentar se aproximar da Rússia e esperar um comportamento amistoso de um país em vias de democratização – que demonstrou não ser nada disso. A possível sugestão norte-americana de armar o governo para enfrentar os separatistas em pé de igualdade resultaria em uma corrida armamentista explícita. A própria ideia derradeira de enviar tropas de paz da ONU para supervisionar o cessar-fogo literalmente seria considerado pelos separatistas um rompimento do mesmo e daria munição para avançarem. E nunca vai acontecer, já que a Rússia vetaria de qualquer jeito.

Deve a Ucrânia considerar perder os anéis para não perder os dedos? O grande risco (para os Estados) do sucesso de movimentos separatistas é o exemplo que isso pode dar (razão pela qual a China, tradicional aliada de Moscou, nem gosta de tocar nesse assunto). Uma via diplomática, assim como nas guerras mencionadas ali no começo, seria a melhor saída, mas também se chegou a um ponto sem retorno em que a situação deve ser resolvida pelo conflito. Essa solução já esta acontecendo há um ano. O problema é saber se vai trazer mais negociadores para seu desenvolvimento macabro.


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