Ultrapassando Mandela

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Nos últimos dias, tive contato com alguns dados recentes feitos por um programa de cooperação cientifica em sociologia entre China, Brasil, Índia, Rússia e África do Sul, do professor Tom Dwyer, do departamento de sociologia da UNICAMP. Nos próximos posts, tentarei compartilhá-los, junto a informações de pesquisas recentes, que dão conta da situação social atual desses países tão em moda, por formarem o grupo dos BRICS. 

E começo fazendo uma análise da importância desses novos estudos, tomando por base a África do Sul atual, pós Nelson Mandela, certamente um dos grandes líderes construídos durante o século XX. O homem considerado o principal ator na luta contra a segregação racial e o racismo na África do Sul e no mundo, o que por si só o coloca como grande símbolo de outras batalhas contra grandes injustiças. Sua história é impressionante. Passou décadas trancafiado na prisão, junto a seus companheiros, onde permaneceu são e convicto de suas ideias, aquém da cadeia e das acusações por terrorismo. Saiu dela e foi alçado a presidência de um país que era governado pela minoria branca, que havia institucionalizado o regime jurídico de segregação racial conhecido como Apartheid. 

Mas Mandela aparentemente não guardava mágoas. Dentro de seu governo, as leis que sustentavam o regime morreram. Mas as principais vitórias foram segurar o ímpeto dos mais radicais de seu partido, que defendiam a cobrança violenta dos débitos construídos durante o antigo regime, e também respeitar a oposição, parte dela ainda racista, que dominava a imprensa com mensagens reacionárias. A indiferença e a tolerância com esses grupos foi o próprio combustível para o enfraquecimento deles. A sua vitória foi o início de um novo tempo, em que ao menos seria possível imaginar construir um país coeso. 

Como todos os líderes muito envolvidos em suas batalhas, Mandela sempre soube que aquilo, em contrapartida a ser o final de uma luta, era apenas o início. Uma nação se construía, mas não uma nação bela, espontaneamente livre de seu passado. Se na maioria das vezes os tribunais não cobram os crimes prescritos, o futuro de uma sociedade sim. A África do Sul saiu do Apartheid como um país pobre em desenvolvimento, com forte desigualdade social e racial e assim continuou. 

Não existem milagres nas mudanças sociais. E não seria na África do Sul a primeira vez. Rasgadas as leis, acabada a desigualdade jurídica, sobra a social. Sobre a construção das nações modernas, estão escondidas as marcas que garantiram a sua própria formação. A África do Sul foi baseada na própria sociedade de segregação. Ainda hoje é, quando observamos que grande parte dos negros não saiu de bairros pobres como o famoso Soweto. Se Mandela se transformou em mito, os sul-africanos vivem na realidade.

O líder não só dividiu a história, mas parou o tempo no qual discutimos o país. Quando se discute fora da África do Sul do Apartheid, se discute o passado. Faltam análises sobre o presente. Um país com índice de Gini como um dos mais altos do mundo, de 0,593, ainda extremamente desigual. Com falhas no sistema de seguridade dos trabalhadores, bairros de negros inteiros feitos de madeira. O racismo ainda presente. 

Na África do Sul, o Soweto ainda é o exemplo de bairro dos negros do país, muitos anos depois do fim da segregação jurídica. Restam os muros garantidos pela estratificação social, cristalizada no país além do que se pode destruir com novas leis. E isso não ocorre só na terra de Mandela, mas também em outras sociedades. Nas sociedades dos BRICS. 

Resta romper outros muros, entre eles o do mito Mandela e da visão pausada no momento da vitória contra o Apartheid, para que se possa ter uma visão de como é a Africa do Sul internamente nos dias atuais, a realidade do “novo Brasil”, a “China desenvolvida” ou a “Rússia democrática”, fora das questões diplomáticas e do comércio internacional. Essas analises servirão para reafirmar ou contestar o modo como vemos o momento dessas nações internamente.


Categorias: África, Polêmica


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