Turquia: o valor da tradição

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Há pouco mais de 3 anos, fiz um estágio na prefeitura de Bursa (quarta maior cidade da Turquia). Lembro que duas questões me foram especialmente marcantes. Primeiro, a convivência entre a tradição e a modernidade. Segundo, a figura mítica do libertador nacional, Atatürk, que fundou a República no país. No meio de tudo isto, havia ainda uma grande ambição nacional, uma movimento que apontava na direção da prosperidade.  

Na minha visão, os recentes confrontos, iniciados em Istambul e logo propagados país adentro, se inserem dentro do quadro descrito. A questão da identidade se sobrepõe aos interesses. Neste sentido, buscar entender a ação política passa por refletir sobre a construção social desta identidade a partir dos valores nacionais. Na fundação posta em marcha por Atatürk, a questão do estabelecimento de um Estado secular foi central. O seu caráter laico foi um dos pilares da modernização do país. A República foi outro.  

Erdogan, primeiro-ministro turco, está no poder há 10 anos. Seu partido ganhou as 3 últimas eleições. De um lado, os recentes planos de investimento e modernização (incluindo este que iniciou os protestos) refletem o projeto de uma Turquia ambiciosa. Uma Turquia, inclusive, que era favorita na corrida para sediar os Jogos Olímpicos de 2020. Por outro lado, os valores parecem alvo do mandatário, por intermédio de atitudes julgadas como hostis contra Atatürk e seus valores. Como exemplo, ativistas e opositores apontam a transformação das escolas em semi-religiosas, assim como limitações à venda de métodos contraceptivos. 

Desta forma, quando surge o movimento de oposição à revitalização da região de Taksim, a resposta desproporcional do governo promoveu a fagulha que faltava diante de preocupações crescentes. O vice-primeiro-ministro, em sequência, pediu desculpas aos manifestantes e reconheceu as preocupações relativas aos impactos ambientais do polêmico projeto como legítimas. Erdogan, por sua vez, relacionou parte dos manifestantes com o atentado, em fevereiro, à Embaixada dos Estados Unidos e alertou para o perigo que representam.
 

Estão em questão os planos imobiliários, a questão ambiental e o autoritarismo do governo. Contudo, a questão de fundo é o papel dos valores. Medidas restritivas, contra o álcool e estudantes são impopulares, mas não seriam suficientes para promover uma reação nas proporções vistas. Tampouco bastaria o movimento ambiental. Apesar do mosaico religioso e social da Turquia, o país era visto como um aliado fiável do Ocidente, capaz de travar um diálogo entre Ocidente e Oriente como nenhum outro país. Tudo ia bem, excluindo a questão curda, até mexerem onde não deviam.  

O elemento simbólico era o projeto para derrubar o centro cultural, em Taksim, que leva o nome do herói nacional. Dizia-se ser parte da revitalização, mas ninguém acreditou. Existem questões inegociáveis, aproveitou-se a oportunidade para juntarem as insatisfações de uma vez. Chegou-se ao ponto de torcedores de Fenerbahce e Galatasaray, protagonistas de sangrentos confrontos devido ao futebol, portarem a mesma bandeira desta vez. Afinal, com o Atatürk ninguém mexe.  


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


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