Turquia: na encruzilhada dos Direitos Humanos

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Sempre um tópico delicado. Afinal, muitas vezes mistura-se com outros interesses. A concepção normativa deste tema fortaleceu-se após as atrocidades cometidas por máquinas concebidas para nos proteger.  O termo “crime contra a humanidade” surgiu após o massacre contra armênios e civis cristãos, ao passo que a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” veio em resposta aos crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial. Mas, quais interesses afetam a defesa das normas internacionais relativas a este tema? Alguns, entre eles: alianças estratégias, interesses econômicos e vínculos políticos.

A Turquia, neste sentido, ajuda a contextualizar as dificuldades para conciliar seus interesses e a defesa dos Direitos Humanos. Por um lado, tenta projetar uma posição proeminente na defesa do povo sírio, marcadamente através da reprovação das recentes ações adotadas pelo governo comandado por Assad. Por outro, mantêm a recusa dos crimescometidos contra os armênios e cristãos, nos últimos anos do Império Turco-Otomano. Entre 1915 e 1917, estima-se que 1,5 milhão de armênios foram mortos e 500 mil deportados. Atualmente, há acusações de violência contra curdos e alevitas vivendo no território turco.

Mesmo assim, o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, classificou o massacre de 150 pessoas na região central da Síria de tentativa de genocídio. Entre outras afirmações de Erdogan, cabe destacar a denominação de Assad como “um ditador sanguinário” e o clamor por sua renúncia. De certa forma, esta é a nova missão proclamada pelo governo turco, ou seja, tornar-se a voz mais importante da comunidade islâmica no mundo. Parte desta missão envolve defender a liberdade e promover a democracia. Contudo, como atingir este status quando continua a negar seus próprios erros e falhas do passado?

As questões étnicas e religiosas seguem atormentando qualquer tentativa de estabilização no Oriente Médio. Na Era da Informação é cada vez mais difícil esconder suas ações. Mais difícil ainda é fingir que não existe hipocrisia em defender outros oprimidos no exterior ao passo que a violência circunscrita a determinados grupos segue no âmbito interno. A Turquia, como líder regional e principal interlocutor junto ao Ocidente, poderia começar através do estabelecimento de seu exemplo. A comunidade internacional não precisa de mais uma potência em que o discurso não está em sintonia com a ação.

No caso específico da Síria, a posição da Turquia pode soar como a possibilidade de salvação para a maioria sunita, enquanto os demais grupos (incluindo cristãos e judeus) temem o que representa a liberdade que os turcos oferecem. À medida que a vigilância na fronteiraintensifica-se e aumenta o fluxo de refugiados, grupos minoritários da Síria também acrescentam temores ao seu conjunto de inquietações. Talvez fosse o momento de a liderança turca evidenciar que se trata de uma questão de Direitos Humanos, não somente dos islâmicos. Será que a Turquia conseguirá, por fim, dar um passo rumo à estabilização regional?  

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Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos


1 comments
Harley
Harley

Sr. Luís Felipe,Muito interessante seu questionamento. Vamos acompanhar até onde os interessem irão prevalecer.É um tanto complexo falarmos sobre a Turquia.Harley