Turquia I

Por

[A fundação da República e o herói nacional, Atatürk]

A região onde está localizada a Turquia foi palco de grandes acontecimentos históricos. Quando na escola e/ou universidade, muito ouvimos e estudamos sobre a civilização grega, romana, bizantina e otomana. De alguma forma, todos esses períodos encontram a região como uma convergência.

Com um considerável avanço histórico, passemos ao Império Otomano. De início, foi formado por guerreiros turcos para lutar contra os mongóis. Porém – no seu período áureo – empreendeu uma grande expansão territorial, tomando regiões na Europa, Oriente Médio e África. O Império Otomano chegou às portas Viena, tendo sobrevivido por seis séculos, o que por si só já evidencia sua imensa importância.

No século XIX, o Império Otomano cambaleava. Diversos fatores contribuíam para seu enfraquecimento, como: a má administração, o fortalecimento das divisões étnicas e as pressões nacionalistas/imperialistas. Neste período, diversos povos demandavam suas independências, ensejando conflitos que terminaram por minar a estabilidade otomana. O que antes Império, terminou por ser recortado, através da criação de novos estados nos Bálcãs ou através de demandar por zonas de livre tráfego dentro de seu território.

O golpe final veio durante a Primeira Guerra Mundial, com a derrota ante aos aliados. O Império Otomano acabou vendo seu território reduzido ao que hoje corresponde à Turquia. Ainda assim, a história não se encerrou aqui. Os turcos então passaram a sofrer pressões vindas do leste, oeste e sul. Mas essas pressões não se limitavam aos agentes exógenos. Existiam ainda forças rebeldes dentro do próprio território turco.

Neste momento emerge o grande herói nacional, Mustafa Kemal Atatürk. O general foi o libertador do povo turco e fundador de sua república. Atatürk organizou a resistência frente às invasões externas, controlou os movimentos internos e comandou a vitória de seu povo durante a Guerra de Independência – mesmo confrontado potências ocidentais com capacidade militar superior. Após a vitória e a fundação da República na Turquia, o líder proclamou:

“Following the military triumph we accomplished by bayonets, weapons and blood, we shall strive to win victories in such fields as culture, scholarship, science, and economics,” […] “the enduring benefits of victories depend only on the existence of an army of education” 

Com a independência garantida, Atatürk tornou-se o primeiro presidente da Turquia, empreendendo reformas econômicas, políticas, culturais e sociais. Na sua visão, a nova República, das ruínas do Império Otomano, consolidar-se-ia como democrática e secular. Seus esforços para modernizar o país não foram completamente bem-sucedidos, gerando, inclusive, críticas de setores da sociedade. No entanto, sua visão e ideários seguem permeando o cotidiano da população turca.

Deixando os julgamentos de seu governo de lado, pode-se afirmar que Atatürk foi o grande líder e visionário da história da Turquia, considerando o período contemporâneo. Há uma imensa admiração e respeito por seus feitos e caráter, por todo o país. A veneração por sua figura é, em minha visão, sem precedentes quando comparada com outros países. Em geral, os povos e países têm grande dificuldade em julgar e valorizar suas figuras históricas. Neste aspecto, o povo turco deixa o exemplo.

Em tempos de grandes desafios – como os atuais – são necessárias figuras com visão além de seu tempo e capacidade de liderança. Apesar de fatos negativos que podem ser levantados de Atatürk, inegavelmente seu nome está entre os visionários de seu tempo. Sua figura é ponto de convergência e orgulho para o povo turco. Por toda a parte, é possível ver bandeiras da Turquia hasteadas e fotos de Atatürk, sejam em casas, repartições públicas, escritórios ou nas ruas. O seu feito foi admirável, um país entre o ocidente/oriente e leste/oeste e com fortes tendências a fragmentação política no pós Primeira Guerra Mundial, que terminou transformado – sob a sua liderança – em uma República de um povo que valoriza sua própria história, tradições e valores.

Não são todos os países que valorizam suas figuras histórias. Por exemplo, teria o Brasil uma figura histórica consensual? Ou só temos (e tivemos) nossos heróis na versão de Mario de Andrade, “Macunaímas” – heróis sem (nenhum) caráter? Atualmente, me parece que pendemos mais para a segunda opção, infelizmente.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Olha, quanta honra!Nosso colaborador internacional nos abrilhantou com um post diretamente do estrangeiro.Muito boa as suas considerações, Kita.Abraços, até mais!

Plötter
Plötter

O Ataturk representa pra populacao da turquia o mito fundador da republica. Ha outros, como o imperio Otomano, no entanto a figura mais representativa para a formacao da identidade nacional turca, no caso da republica, e a do Ataturk. Eu diria ate que e o mito de fundacao nacional mais tangivel e proximo, e ao mesmo tempo venerado, que eu ja vi.